Este programa apresenta algumas obras de Humberto Mauro, um dos pais do cinema brasileiro. Personagem que perpassou diversas épocas históricas, do ciclo regional de Cataguases (período de produção cinematográfica regional, de 1925 a 1930, que revelou o talento do cineasta) até seu trabalho na direção do INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), sua trajetória única lançou bases no registro do homem simples do interior, de seus costumes e tradições. Esse apanhado de produções das décadas de 40 e 50 é bem representativo de sua carreira.
Filmes do Programa 33
Tempo total aproximado do programa: 62 minutos.
Crítica
O legado de Humberto Mauro
Glênio Nicola Póvoas
Este DVD reúne um dos projetos mais originais, criativos e fundamentais do cinema brasileiro: o conjunto de sete curtas-metragens realizados entre 1945 e 1956, ao qual Humberto Mauro intitulou Brasilianas, a exemplo das ?Bachianas? de Villa-Lobos. Sua intenção era o resgate da "música folclórica brasileira".
O primeiro curta da série, Canções Populares (1945) reúne duas modinhas: ?Chuá...Chuá...? e ?A Casinha Pequenina?. A primeira, autoria de Ary Pavão e Pedro de Sá Pereira, foi cantada em dueto na revista ?Comidas, meu santo!...?, em temporada no Teatro Recreio, Rio de Janeiro, 1925. "A Casinha Pequenina" é de domínio público. No curta não há créditos para intérpretes. A modinha é uma canção brasileira, de gênero tradicional, quase sempre amorosa (e até erótica), com registros desde o século XVIII. No entanto, as modinhas escolhidas por Mauro já estão impregnadas do romantismo e de um derramado sentimentalismo.
O segundo curta também se intitula Canções Populares (1948), com mais duas músicas, interpretadas por Paulo Tapajós: a modinha ?Azulão? e ?O Pinhal?. ?Azulão? é uma obra-prima de síntese, seu menor filme (um minuto e meio), que ilustra, em apenas sete planos, os versos de Manoel Bandeira e a música de Jayme Ovalle. São "planos cada vez mais amplos ? a eterna busca do infinito ? a indicarem o vôo do pássaro que se afasta, para levar um recado de saudade à amada do poeta?. E Mauro explica o arcabouço dramático que há por trás desses sete planos: ?preparação, trama, clímax e desenlace". Da série, ?O Pinhal? é o único não-filmado na paisagem de Volta Grande, em Minas Gerais. As locações são os pinheirais de Campos do Jordão (interior paulista) para a música de Armando Percival e os versos de Maria da Cunha.
O conjunto Os Cariocas interpreta as canções dos dois próximos curtas: Aboio e Cantiga (1954) e Engenhos e Usinas (1955). Como informa o letreiro inicial, "aboio é o canto com que o vaqueiro acalma a boiada. É melodia de caráter suave; um som prolongado e macio, que tem como que o dom de transformar o 'bravo' em 'manso'". O aboio que ouvimos a seguir é dilacerante, toca no fundo d'alma, desperta uma nostalgia de algo que não vivemos... (maravilhosa sensação que permeia toda série). Engenhos e Usinas inicia com o próprio Mauro sentando-se nas raízes de uma grande árvore a contemplar a natureza ? objeto maior de sua obra documental. Além das lindas canções resgatadas, recorre-se a trecho inicial do poema "Os Engenhos de minha Terra", de Ascenso Ferreira.
A cada filme Mauro vai crescendo na escolha e composição dos enquadramentos, como em Cantos de Trabalho (1955). Destaca-se aí o segmento "Aroeira", com planos em contra-plongée (filmados de baixo para cima) de negros fortes, suados socando a terra, em estudada coreografia. No fundo do enquadramento, um dramático e pictórico céu.
Manhã na Roça ? O carro de Bois (1956) é mais uma sensacional aula sobre nossa memória, fazendo poesia a partir de tema tão árido, que será retomado no curta Carro de Bois (1974).
Por fim, Meus Oito Anos (do romântico Casimiro de Abreu) é a soma da obra maureana. O mesmo expediente do homem que, à sombra de uma árvore, contempla a natureza e relembra o harmonioso passado.
O legado de Humberto Mauro está em vossas mãos!