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Literatura e Cinema

Programa 34
Literatura e Cinema são artes que se interpolam e este programa traz bons exemplos disso. No filme A João Guimarães Rosa, mestre Roberto Santos enfoca o sertão eternizado pela obra do autor de "Grande Sertão: Veredas". A Moça que Dançou Depois de Morta traz a literatura de cordel transformada em cinema de animação, enquanto Biografia do Tempo promove uma mescla da obra de Santiago Alvarez e Pedro Nava. Em Françoise e Transubstancial, Luiz Vilela e Augusto dos Anjos são respectivamente celebrados por cineastas de seus estados de origem. Imensidade engendrada uma interessante experimentação sócio-poética ao fazer declamar Castro Alves em plena Praça da Sé. Em Meu nome é Paulo Lemiski, a obra do poeta paranaense serve de fonte de conflito entre pais e filhos. Trabalhos díspares que demonstram as possibilidades múltiplas da adaptação literário-cinematográfica.

Filmes do Programa 34


Tempo total aproximado do programa: 87 minutos.

Crítica


A Palavra e a Imagem.
Januário Guedes


O cinema sempre buscou na literatura temas e argumentos que deram origem a filmes de todos os gêneros, alguns de grande sucesso. A palavra escrita ou proferida, símbolo por excelência, exige talvez mais esforço do que o signo icônico – ou seja, a figuração do mundo representado pela imagem -, para ser entendida pelo interlocutor. Mas ambas necessitam da intervenção da mente humana no processo de definição do sentido do discurso. E a própria palavra “imaginar” já permite entender que todo pensamento humano se estrutura com imagem. Dito de outro modo, o mundo só poderá ser pensado através da imagem.

Toda essa conversa introdutória serve para dizer que os sete filmes de curta-metragem incluídos neste programa procuram, de várias maneiras, dar conta dessa relação entre a palavra e a imagem, num processo que os estudiosos chamariam de transcodificação. Alguns deles se apresentam como ensaios poéticos, na tentativa de encontrar metáforas visuais correspondentes àquelas dos textos nos quais se baseiam. Este é o caso do filme A João Guimarães Rosa, no qual a textura das belas imagens em preto-e-branco da fotógrafa Maureen Bisilliat procuram corresponder às palavras de Guimarães Rosa, descrevendo em “Grande Sertão: Veredas” a paisagem física e humana das Gerais.

É também o caso de Biografia do Tempo, um encontro poético entre as palavras de Pedro Nava e as imagens do cineasta cubano Santiago Alvarez, diálogo sobre o tempo e a memória. Ou de Transubstncial, no qual o texto de Augusto dos Anjos dá origem a metáforas visuais sobre a vida e a morte.

Já em Imensidade, orientado pela poesia de Castro Alves, cujo apelido era “Ceceu”, uma personagem de ficção, vestida de noiva, percorre uma grande cidade em busca do noivo, pedindo informação aos habitantes marginalizados de suas ruas. Do mesmo modo, o cordel de José Francisco Borges faz o pano de fundo para a animação da xilogravura de Jorge Bezerra, importante artista popular do nordeste, no curta de animação A Moça que Dançou Depois de Morta.

Há ainda um filme que talvez pudesse ser chamado de “experimental”, cujo título é Meu Nome é Paulo Leminsky, e que preserva, na sua forma, a irreverência do poeta paranaense e sua não-conformação com padrões estabelecidos.

Por fim, há uma adaptação do conto “Françoise”, do mineiro Luiz Villela, que, mesmo conservando um formato sem grandes inovações, garante, até mesmo pela interpretação dos autores, um bom momento de cinema.


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