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Memórias da Boca do Lixo

Programa 36
Memórias da Boca do LixoAmpliar Foto do Programa 36
Classificação
16 anos
Séries
· Histórias e personagens do Cinema
A ?Boca do Lixo? é uma região do centro de São Paulo tradicionalmente marcada pela prostituição, a criminalidade. Durante o final da década de 1960, vários pequenos produtores transferiram suas empresas para a região, que ao longo da década de 1970, transformou-se num dos maiores pólos de produção de filmes comerciais da história do cinema brasileiro. Comédias eróticas, filmes policiais, fitas de terror e até memso westerns estão entre os gêneros explorados pelos diretores e produtores da "Boca". Responsável por muitos dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro entre o final dos anos 60 até a "era Collor", o cinema popular produziu na "Boca do Lixo" começou a perder fôlego no início dos anos 80, quando o mercado brasileiro foi invadido pelos filmes americanos de sexo explícito. A pá de cal no cinema da "Boca" veio com a extinção, nos anos 90, dos mecanismos que fiscalizavam a obrigatoriedade de exibição do filme brasileiro no mercado nacional.

Filmes do Programa 36



Crítica


Olhar Reverente Sobre a Boca do Lixo.
Paulo Santos Lima

O Cinema da Boca foi uma ate que dialogava com o grande público, única grande experiência de cinema popular da nossa história. Se o senso comum, equivocado, senão injusto, caracteriza esse cinema como agressão ao bom gosto, sem grandes formalismos estéticos e focando apenas o apelo ao sexo, a história confirma o oposto. Nos arredores da Rua do Triunfo, na região central de São Paulo, houve um trânsito de várias pessoas ligadas ao cinema, dos mais rudes técnicos estetas como Ozualdo Candeias, Walter Hugo Khouri, José Mojica Marins, Carlos Reichenbach, Sylvio Back e os paródicos Ody Fraga e Osvaldo de Oliveira. O resultado foi um grande ecletismo temático e estilístico de longas, quase todos financiados pelos próprios exibidores locais, obtendo retorno comercial e fazendo frente à produção norte-americana.

Esse momento sagrado de nosso cinema talvez explique por que os quatro documentários deste pacote adotam um olhar reverente e externo, jamais mergulhando ou problematizando esta experiência, exemplar, sobretudo, entre 1968 e 1982.

O que importa nesses filmes é sobre o que eles falam, e não como. O Galante Rei da Boca (2003), de Alessandro Gamo e Luís Rocha Melo, trata do produtor Antonio Pólo Galante, cuja história confunde-se com uma grande radiografia do que foi feito naqueles anos. Da seleção, este é o título que mais abre o leque, entrevistando de intelectuais, como Inácio Araújo (também realizador, na época) e João Silvério Trevisan, ao montador Severino Dada, que fala sobre o Cinema do Beco, versão carioca da Boca, na região da Cinelândia.

Mais específico, Soberano (2005), de Kiko Mollica e Ana Paula Orlandi, centra-se no lendário restaurante Soberano, ponto de encontro da hora cineasta. Com imagens zapeadas (fotografadas por Aloysio Raulino) intercalando cenas de época e depoimentos, o tom é de velório, mas sem autocomiseração. Afinal, o estabelecimento lutava desde a decadência do ciclo da Boca, nos anos 80, com a invasão do cinema hardcore americano no circuito popular, fechando suas portas em 1995.

Candeias: Da Boca pra Fora (2002), de Celso Gonçalves, mostra o cineasta Ozualdo Candeias, que já nos anos 60 fizera o filme que pode ser considerado, junto a O Bandido da Luz Vermelha, de Sganzerla, o fundador do Cinema Marginal: A Margem (1957). Vestido com seu capacete, sem uma única frase audível, indecifrável, quase oco, é definido no filme por admiradores como Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Jairo Ferreira.

Grande esteta de um cinema de recursos parcos e resultados valiosos, Candeias está mais falante em Boca Aberta (1985). Dirigido por Rubens Xavier e roteirizado por Maria Rita Kehl, é um docudrama que encena algumas situações para os depoimentos do cineasta. O principal é acerca dos filmes de sexo explícito, feitos a contragosto por necessidade material. Candeias, como a maior parte dos entrevistados nos quatro filmes deste pacote, reclama veementemente sobre o fim da Boca, mas não baixa a cabeça.






           
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