A arte de se contar uma estória numa única tomada. Diversos realizadores se colocam esse desafio, de transmitir conteúdo relevante dentro de uma forma bastante restritiva e limitadora. Dois cineastas obcecados plano-seqüência são destacados nesse programa: o pernambucano Camilo Cavalcante (Ocaso, Os Dois Velhinhos e A História da Eternidade) e o gaúcho Gustavo Spolidoro (Velinhas e Outros). Spolidoro atualmente prepara seu longa-metragem de estréia, Ainda Orangotango, numa única tomada.
Filmes do Programa 37
Tempo total aproximado do programa: 58 minutos.
Crítica
Correndo o Risco do Real.
Tiago Mata Machado.
O plano-seqüência, mote desta coletânea de curtas é até hoje visto como sinônimo de cinema moderno. Esse mito nasceu do casamento entre as idéias do crítico francês André Bazin e a arte de gênios cinematográficos como Orson Welles e Roberto Rosselini.
Na visão ideal baziniana, o plano-seqüência (grosso modo: um plano suficientemente longo e trabalhado para equivaler a toda uma seqüência) era a concretização da vocação do cinema para o real, um recurso capaz de lidar com a realidade em toda a sua ambigüidade e mistério e de respeitar assim a liberdade do espectador. Atribuir ao que não passava de uma figura de estilo um valor quase transcendental teria sido, aliás, o grande erro de Bazin, como diria mais tarde o seu discípulo Eric Rohmer. Figura de estilo como tantas outras, o plano-seqüência não se provaria, com o tempo e a evolução do cinema, nem tão “realista”, nem tão “transparente” quanto idealizara Bazin.
É o que prova esta coletânea: apesar da proposta comum (sintetizar uma narrativa num único plano-seqüência), cada curta explora uma possibilidade diferente dessa figura de estilo. Um DVD que vale, portanto, por uma boa aula de cinema, uma demonstração de quantas possíveis mise-en-scènes podem surgir de um mesmo recurso (o plano-seqüência e suas múltiplas variações espaço-temporais).
Em Ocaso, curta do recifense Camilo Cavalcanti que abre a série, vemos perfilados, num único movimento de câmera, todos os significados da palavra-título. Cavalcante já esboça aí uma concepção temporal do plano-seqüência na qual se aperfeiçoa em seus filmes seguintes. Em Os Dois Velhinhos, a câmera gira em travel-ling circular (em cima do mesmo eixo) ao redor de um casal de idosos, fazendo (proustianamente) o inventário das imagens e objetos da casa, signos de um tempo perdido. A rotação atravancada remete ao movimento de um ponteiro de um relógio, mas o segredo de fabricação do perfeito mecanismo de uma imagem-tempo o diretor só parece alcançar em A História da Eternidade.
Em Disparos, de Tarcísio Lara, a circularidade da câmera ilustra o torvelinho psicológico em que se afunda o protagonista, um homem preso a uma idéia fixa. Em a Última Fábrica, do carioca Felipe Nepomuceno, dois tempos se sobrepõem na incursão da câmera pela última fábrica de discos de vinil da América Latina. Como se a câmera reatualizasse, no imediato de sua presença, um meio tornado anacrônico.
Se no curta de Nepomuceno ainda subsiste algo da crença baziniana no cinema como revelação do real. Nos trabalhos do gaúcho Gustavo Spolidoro o real confunde-se com um programa de tevê ruim, como sugere a tirada de Woody Allen citada em seus dois filmes, Velhinhos e Outros. Num mundo cada vez mais programático, em que a realidade se contamina por roteiros e programas de toda espécie, é preciso buscar “o risco do real” (como diria o teórico Jean-Louis Comolli), aquilo que do real se obstina na imprevisibilidade e no mistério.