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Anahy de las misiones

Programa 39
Anahy de las misiones é um raro filme brasileiro a abordar de forma poética, dramática
e lúdica episódios lendários da história do período colonial, aqui ambientados na Revolução farroupilha (1835-1845). É a recriação de lendas dos gaúchos do Brasil, Argentina e Uruguai, como aquela de Anahy de las misiones, que errava pelos países do Prata vendendo despojos saqueados dos soldados mortos nas batalhas, ou
a da Salamanca do Jarau (fixada por Simões Lopes Neto em Lendas do Sul). Eleito melhor filme pelo júri e público no Festival de Brasília de 1997.

Filme do Programa 39


Tempo total aproximado do programa: 110 minutos.

Crítica


MÃE CORAGEM

Marcus Mello*

Lançado em 1997, Anahy de las misiones foi o filme que marcou a retomada da produção cinematográfica no Rio Grande do Sul, depois dos anos de terra arrasada do governo Collor. Uma década depois, o filme de Sérgio Silva preserva sua força e o Estado é hoje o terceiro pólo produtor de cinema do País.

Silva inspirou-se na peça Mãe Coragem, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, para promover uma revisão crítica da Revolução Farroupilha (1835-1845). Também conhecida como Guerra dos Farrapos, a luta separatista entre caramurus (os defensores do Império) e farrapos (os revolucionários) é um dos episódios mais sangrentos da História do Brasil e acabou se transformando em mito fundador da identidade gaúcha. Aqui, no entanto, saem de cena os generais e heróis que costumam povoar o imaginário em torno da guerra. O diretor apresenta a Revolução Farroupilha pela ótica dos vencidos, elegendo como personagens os membros de uma família que percorre o pampa gaúcho recolhendo os despojos nos campos de batalha, em busca de objetos de valor nos bolsos dos soldados mortos.

Liderada pela matriarca Anahy, cuja fortaleza encontra eco nas personagens femininas do escritor Erico Verissimo da série O Tempo e o Vento, especialmente Ana Terra e Bibiana, esta família de anti-heróis abutres é formada por quatro filhos, três homens e uma mulher. Juntos, eles arrastam uma enorme carroça pelos campos encharcados de sangue do Rio Grande do Sul, buscando sobreviver em meio à barbárie da guerra. A jornada de Anahy e seus filhos assume um caráter arquetípico, representando o lento caminho do homem em direção à civilização. Os personagens de Anahy de las misiones, no entanto, não são figuras planas, criadas apenas para ilustrar uma tese. As relações entre eles são marcadas por sutilezas e complexidades de toda a espécie, com um surpreendente tratamento das questões ligadas à sexualidade (a delicada abordagem do homossexualismo é um dos aspectos a ser ressaltado). Além disso, suas ações são sublinhadas por diálogos de sabor literário, que recriam o português arcaico falado no Rio Grande do Sul no século XIX.

Valorizado pelas belas locações do interior gaúcho, o filme de Sérgio Silva também revelou para o Brasil o talento da veterana Aracy Esteves, atriz de teatro com larga carreira nos palcos de Porto Alegre. Na pele de Anahy, Aracy tem o papel da sua vida. Seu desempenho, premiado em diversos festivais, atinge o ápice na cena em que a personagem sucumbe, após saber da morte de seu segundo filho. Ao continuar a viagem com seus outros filhos, de repente aquela mulher aparentemente inatingível desaba em um terreno enlameado e começa a rolar pelo chão, urrando de dor. Poucas vezes o sofrimento de uma mãe pela perda de um filho foi mostrado de forma tão dramática e intensa no cinema. Apenas este momento já justificaria a descoberta de Anahy de las misiones, mas o filme de Sérgio Silva tem muito mais a oferecer ao espectador.

* Marcus Mello: crítico de cinema, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantidoa pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.

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