Baile perfumado e O homem da Mata promovem uma mistura curiosa de gêneros ao incorporarem ficção ao retrato documental. No filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, revivemos a saga do libanês Benjamin Abrahão, mascate responsável pelas únicas imagens de Virgulino Ferreira, o Lampião, quando este vivia em plena campanha no sertão nordestino. No filme O homem da Mata, de Antonio Carillho, o artista popular Zé Borba da Silva, ator, canavieiro, cantor, mateiro, compositor, pai-de-santo, artista da brincadeira folclórica, interpreta Jack, o vingador justiceiro, super-herói defensor dos canavieiros da Zona da Mata.
Filmes do Programa 4
Tempo total aproximado do programa: 111 minutos.
Crítica
Os Inquietos Vão Mudar o Mundo.
Glênio Nicola Povoas.
Baile Perfumado propõe outros olhares sobre o mito de Virgulino Ferreira da Silva. Mas o personagem principal não é o cangaceiro e sim Benjamim Abrahão, conhecido como o mascate que filmou Lampião. Baile Perfumado inicia com a morte do Padre Cícero Romão Baptista, aos 90 anos, em Juazeiro do Norte, Ceará, em 20 de julho de 1934. Na caatinga, enfrentamento entre o bando de Lampião e uma volante liberada pelo tenente Lindalvo Rosas. Em Fortaleza, Abrahão propõe a Adhemar Bezerra de Albuquerque, proprietário da ABA Film (iniciais de seu nome), a confecção de um filme sobre Lampião. Abrahão parte m busca de apoio junto aos coronéis que possam garantir segurança. O encontro acontece num dos esconderijos do bando. O líder aceita ser filmado (em alguns dias de maio de 1936). Abrahão retorna para mais filmagens e fotografias (de outubro de 1936 a início de janeiro de 1937). Fotos de Lampião são publicadas em O Cruzeiro, revista semanal de maior circulação nacional. Os governos não gostam. Em seguida, o filme é proibido (abril de 1937) e Abrahão é assassinado (em 10 de maio de 1938). Lampião, no topo de uma rocha, olha a caatinga.
O libanês Benjamim Abrahão conviveu com os dois maiores mitos do sertão nordestino. Foi secretário particular de Padre Cícero nos seus últimos dez anos de vida. Conheceu Virgulino acompanhado de seu bando, em março de 1926, quando vão a Juazeiro, solicitados pelo governo federal para lutar contra a Coluna Prestes. Na Feliz análise dos próprios realizadores a figura de Abrahão é a metáfora da “modernidade entrando no sertão”
Houve muita pesquisa e descobertas e nem tudo está no filme. Encontros com o especialista Frederico Pernambucano de Mello, que entre outras preciosidades havia adquirido alguns pertences de Abrahão, como duas cadernetas com anotações em árabe e a câmera usada para as históricas filmagens. As informações sobre o filme de depois de exibição em Fortaleza, por decisão federal, de Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda, negativos e cópias de Lampião, o Rei do Cangaço são apreendidos (abril de 1937) e depositados num porão. O material é descoberto em 1957 por Alexandre Wulfes e Alcebíades Ghiu que recuperam os 15 minutos conhecidos desde então. Essas imagens vem aparecendo ressignificadas em Memória do Cangaço (1965, Paulo Gil Soares) ou A Musa do Cangaço (1982, José Umberto Dias). Dias é responsável por um texto que é básico para Baile Perfumado, “Benjamim Abrahão, o mascote que filmou Lampião” incluindo no livro “Cangaço – O Nordeste no cinema brasileiro”, organizado por Maria do Rosário Caetano (Brasília, Avathar, 2005).
Acompanha esta edição o curta O Homem da Mata. Na fronteira entre o documentário e a ficção, o filme faz um resgate de José Borba, ator, canavieiro, cantor, compositor, pai-de-santo, artista da cultura popular, que interprete Jack, o vingador justiceiro, protetor dos canavieiros. Filmado nas cidades de Aliança e Condado, na Zona da Mata pernambucana. É a segunda direção em cinema de Antônio Luís Carrilho; realizou antes o curta Sociobiologia (2000).