O cinema de Andrea Tonacci é único e sem
paralelos dentro do cinema brasileiro. Por mais
que se costume localizar seus filmes no cerne
do chamado Cinema Marginal, de fato seus
trabalhos se diferenciam bastante do que se
realizou em torno daquele movimento cinematográfico.
Marcado por uma preocupação rigorosa
com a linguagem do cinema em seus elementos
constitutivos básicos (fotografia, som
e, principalmente, a montagem), seu cinema
ainda assim revela-se muito pouco formalista
e, ao mesmo tempo, extremamente humano e
urgente. Com Bang bang e Bla bla bla..., Tonacci
nos impõe um paradoxo de enorme beleza:
faz um cinema radicalmente atemporal, mas
ao mesmo tempo profundamente fincado no
momento histórico em que é realizado. Tratase
de uma dupla de filmes essencial para compreender
o Brasil da virada dos anos 1960 para
os 1970, mas também de hoje e sempre.
Filmes do Programa 40
Tempo total aproximado do programa: 111 minutos.
Crítica
INVENÇÃO SEM LIMITES
Marcus Mello
Poucos filmes brasileiros são alvo de um culto tão apaixonado entre os cinéfilos como Bang bang, de Andrea Tonacci. Uma obra concebida sob o signo da irreverência e da liberdade, Bang bang forma, ao lado de O Bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, e O pornógrafo (1970), de João Callegaro, a grande tríade metalingüística do cinema paulista produzida na virada dos anos 1960 para os 1970, fortemente inspirada pela obra de Jean-Luc Godard. Era o cinema moderno realizando-se em sua plenitude no Brasil, no auge da ditadura militar.
Nascido na Itália e radicado em São Paulo desde 1953, Andrea Tonacci implode a narrativa clássica em Bang bang, construindo seu filme através de longos planos-seqüência, que encantam pelo insólito das situações, pelo humor e pelo rigor da construção. A trama, ou fiapo de trama, acompanha um homem (Paulo César Pereio) perseguido por três bandidos (um deles travestido) pelas ruas de Belo Horizonte. A influência de Godard manifesta-se de todas as formas em Bang bang, seja pela citação direta ou pela incorporação de elementos estilísticos caros ao diretor franco-suíço, como a preferência pelos travellings ou o uso da metalinguagem. O filme apresenta uma série de seqüências fechadas em si próprias, sem ligação aparente com o que vem a seguir e freqüentemente repetidas com leves alterações, à maneira de variações musicais. O uso recorrente da canção Eu sonhei que tu estavas tão linda, cantada pelos personagens em diferentes momentos da narrativa, acentua esse caráter de composição musical identificado na arquitetura de Bang bang.
Filme de cinema, em que a presença da câmera várias vezes é revelada ao espectador, seja através do reflexo em um espelho ou de um personagem chocando-se contra a lente, Bang bang é um tiro mortal no coração dos acomodados e sem imaginação. Sua invenção não tem limites, provocando momentos da mais alta diversão, dignos de um filme de aventura como Hatari (1959), de Howard Hawks, citado de forma explícita numa das tantas cenas antológicas deste clássico da transgressão.
Já Bla bla bla... é um notável exemplar do cinema político brasileiro. Esse média-metragem realizado por Andrea Tonacci em 1968 contrapõe imagens de arquivo e seqüências encenadas de um grupo de guerrilheiros em ação ao discurso de um político (Paulo Gracindo) diante das câmeras de televisão. A afirmação de Maiakóvski de que não existe arte revolucionária se a forma não for revolucionária aplica-se com perfeição a Bla bla bla..., um pequeno grande filme que, a seu tempo, anunciou os anos de chumbo a serem enfrentados pelo Brasil depois do AI-5, mas consegue ainda hoje permanecer assustadoramente atual.
Marcus Mello: crítico de cinema, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.