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Cronicamente Inviável e Divina Previdência

Programa 42
Cronicamente Inviável e Divina PrevidênciaAmpliar Foto do Programa 42
Classificação
18 anos
Composto por filmes dirigidos por Sergio Bianchi, o programa permite conhecer dois momentos da obra do diretor, que sempre propõe histórias contundentes numa tentativa de melhor entender o fragmentado e contraditório Brasil. Depois de larga experiência fílmica, é com o longa-metragem Cronicamente inviável que o diretor atinge sua maturidade, apontando questões urgentes e mal-resolvidas com ironia e perplexidade. Rodado em 1983, quase 20 anos antes do longa, o curta-metragem Divina previdência também já se ocupava dos problemas sociais ao retratar um mendigo ferido às voltas com o sistema público de saúde e a previdência social.

Filmes do Programa 42



Crítica


CINEMA DE URGÊNCIA
João Luiz Vieira

Nesse programa, dois filmes reforçam a urgência de um cinema de confronto, provocação e polêmica, no panorama atual em que o cinema brasileiro anda cada vez mais comportado: o longa Cronicamente inviável, de 2000, e o curta Divina previdência, de 1983. Ambos exibem, e muitas vezes gritam, a preocupação com a representação da realidade social e política do País através das fraturas do tecido social de um mundo degradado ecologicamente, como nas imagens impressionantes de uma floresta amazônica queimada de Cronicamente, ou povoado por personagens acuadas e submetidas a massacres cotidianos, como o desgraçado indivíduo em busca de atendimento nas filas e na burocracia do sistema público de saúde de Divina previdência. Trata-se de um cinema que não tem medo de expor ao ridículo figuras detentoras do poder corrupto e institucionalizado, num acúmulo de tipos, situações e recorrências que explodem, de forma esgarçada, a linguagem do mundo organizado.

Sergio Bianchi pertence a uma geração intermediária entre os realizadores pós-Cinema Novo, mais próximos do chamado ?cinema marginal?, que surge entre as décadas de 1960 e 1970. Sua filmografia é marcada por uma aguda necessidade de questionar o país em suas tragédias nacionais, econômicas, culturais e sociais e a própria linguagem cinematográfica, que torna possível a representação do que vivenciamos como ?Brasil?. Para isso, apaga as fronteiras entre o que se convencionou classificar como ficção e documentário. Em diferentes chaves, assiste-se ao cinema da distopia, em que o desencanto acompanha a reflexão enviesada sobre tudo aquilo que não deu e nem dá certo. O espectador é constantemente interpelado através de personagens que se dirigem diretamente à câmera e convidado a participar de um questionamento sem saída. A intenção, como deixa claro o primeiro plano de Cronicamente inviável, é incendiária. O fogo ateado a um ninho de vespas prepara o espectador, de certa maneira, para o que virá pela frente. A estrutura episódica encontrada neste filme parece servir de pretexto para mostrar uma espécie de colagem de microcosmos de histórias e motivações pessoais que inter-relacionam as mazelas do país com a agressividade necessária para abalar a indiferença e a anestesia reinantes. Trata-se de um cinema que vem ampliando seu caminho de radicalização diante dos ?horrores? nacionais. Mas há espaço, também, para o humor, ainda que corrosivo e irônico, ainda que o riso provocado seja um riso de tom francamente ?amarelo?.

A ironia e a ambigüidade presentes já a partir de títulos como Divina previdência ou Cronicamente inviável, encontram eco na crueldade anárquica do desencanto, da raiva e de uma certa impotência diante do inexorável. Em toda a sua filmografia, Bianchi nos parece muito mais interessado em levantar questões e provocar desconforto pela dificuldade de se encontrar respostas plausíveis para esses dilemas nacionais. Tal atitude tem o significado muitas vezes de uma crítica a um niilismo que atira em todas as direções. Entretanto, essa atitude é ainda mais verdadeira, sincera, vez que o próprio realizador não se posiciona num lado superior, inscrevendo-se, pela voz e pelo corpo, no círculo de ironia e crítica proposto pelos filmes. No fundo, Bianchi talvez pareça lutar por um desejo de transformação e, longe de qualquer atitude niilista, buscar exatamente um sentido (im)possível de ordem num horizonte (im)provável.


* João Luiz Vieira é professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense e autor de, entre outros, Câmera-faca: o cinema de Sergio Bianchi, publicado em Portugal (2004) pelo Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira.

           
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