Um dos grandes marcos do Cinema Novo,
o segundo longa-metragem do cineasta
Glauber Rocha se apodera da linguagem
do cordel para mergulhar no Nordeste do
cangaço, do fanatismo religioso, da miséria
e do poder cruel dos coronéis. O resultado
é uma obra-prima barroca, atravessada
por lirismo cortante e grandeza épica,
que explora a árida paisagem da região
com rara força dramática e simbólica. O
uso da música de Heitor Villa-Lobos contribui
para fazer de Deus e o diabo na terra
do sol um clássico imprescindível.
Filme do Programa 43
Tempo total aproximado do programa: 110 minutos.
Crítica
O sertão barroco de Glauber
João Carlos Sampaio*
Mais célebre filme de Glauber Rocha e talvez o título brasileiro mais conhecido no mundo, Deus e o diabo na terra do sol é um extravagante exercício autoral, no qual se misturam influências do cinema realista, do faroeste norte-americano, da literatura de cordel e da dramaturgia do teatro simbolista.
O Sertão Nordestino no Brasil dos anos 1940 é o cenário para a saga do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) e sua esposa (Yoná Magalhães). Castigado pela seca inclemente, pela condição de pobreza e exploração da sua força de trabalho, o camponês sangra o latifundiário que o oprime e foge com a mulher.
Nas andanças o casal vai encontrar um líder messiânico (Lídio Silva), que promete prosperidade e boa vida aos que o seguirem. Eles resolvem se tornar discípulos, até que a mulher se rebela com os rituais exóticos e resolve apunhalar o religioso. Novamente, os protagonistas ficam à deriva.
É quando vão encontrar o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), cuja vida consiste em saquear para tirar o sustento. Parece uma alternativa razoável para o casal desvalido, até que surge a figura do matador de aluguel (Maurício do Valle), justiceiro decidido a matar o cangaceiro.
Deus e o diabo na terra do sol é um filme repleto de simbologia, que usa os personagens para recriar as forças conflitantes no Nordeste empobrecido. O líder messiânico representa Deus como solução para as injustiças sociais; o cangaceiro é o satanás, ou seja, a solução pela força. O matador de aluguel restitui o equilíbrio, afirmando que nem Deus, nem o seu algoz, são donos da razão.
A terra pertence ao homem é o que diz o filme de Glauber Rocha, que imprime as suas convicções marxistas e revolucionárias com um discurso de grande força visual, amparado pela trilha sonora composta por Sérgio Ricardo, a partir da influência do trovadorismo sertanejo e da poesia popular do cordel.
A virulência que o cineasta usava para defender suas idéias está presente neste filme, que é uma das obras-primas do Cinema Novo e traz todo o vigor do escola político-poética, que mobilizou corações e mentes nos anos 1960.
Barroca desde a sua espinha dorsal, a obra passeia de um extremo a outro, com ousadia e despojamento narrativo. Propõe uma construção que é, ao mesmo tempo, áspera na sua gênese e sofisticada nas suas pretensões discursivas.
Da fome e da miséria, Glauber supõe que virá a revolta. A ira como alimento suficiente para o homem comum, representado pelo vaqueiro Manuel, contestar a sua própria condição. Ele é quem irá se salvar em meio a essa peleja entre Deus e o diabo, metáfora simbólica à crença democrática, de que o povo é quem detém o poder e a força para persistir, superando os desmandos e adversidades.
*Jornalista e crítico de cinema. Escreve para veículos impressos e atua também como comentarista em programas de rádio e TV.