Com desenvoltura rara para um estreante,
o cineasta André Klotzel faz em A marvada
carne uma homenagem ao universo da
cultura caipira, vista aqui num embate com
a cultura da cidade. Adaptação de uma
peça teatral de Alfredo Soffredini, o filme
também recorre à mitologia brasileira ao
colocar em cena figuras como o Saci e o
Curupira. Com nove Kikitos no Festival de
Gramado, em 1984, é uma das comédias
mais divertidas do moderno cinema brasileiro.
Comportamentos urbanos também
estão em pauta em Almoço executivo, curta
assinado pela dupla Marina Person e
Jorge Espírito-Santo, que partem de um
fato corriqueiro para realizar uma comédia
de humor imprevisível.
Filmes do Programa 48
Tempo total aproximado do programa: 91 minutos.
Crítica
A COMIDA NO ESPAÇO URBANO E NO ESPAÇO RURAL
Marcelo Miranda
Dois espaços opostos, dois universos distintos. A princípio, e ao se olhar unicamente as sinopses, nada parece aproximar o longa A marvada carne (1985) do curta Almoço executivo (1996). Porém, assistir a um acompanhado do outro funciona não apenas na percepção de suas diferenças, mas muito mais nas semelhanças ? sendo a maior delas a forma como cada realizador capta o ambiente escolhido a partir de um elemento comum: a comida.
A alimentação é o que faz o homem caminhar, e é dela que os personagens dos dois filmes saem à cata. No caso de A marvada carne, comida é mola-mestre da ação: o caipira Nhô Quim sonha em comer carne de boi e sai pela mata à procura do bicho. De quebra, ainda quer uma mulher com quem possa se casar. É através do contato de Quim e de sua futura esposa, Carula, que o diretor André Klotzel vai explorar o universo ao redor deles.
Mais que isso: Quim e Carula, e todos os demais personagens que os cercam, são partes intrínsecas desse universo. Para reafirmar a idéia presente ao longo de todo o filme, Klotzel filma os atores sempre em contato direto com o ambiente, e o ambiente a todo instante em conflito com os atores. Seja por meio de crendices populares (o curupira, o rio sem peixe, o nariz colado ao contrário, a negociação com o diabo) ou da simples captação de um cotidiano comum (a construção do casebre que será palco de festas, os almoços na beira da terra, os animais que rodeiam a fazenda), A marvada carne é composto por toda uma gama de símbolos nos quais Quim, Carula, Nhô Totó e Nhá Tomasa são integrantes indissociáveis.
É interessante também inserir A marvada carne dentro de um subgênero tipicamente brasileiro: os filmes ?sertanejos?, cuja imagem mais forte é a de Amacio Mazzaropi. Esse tipo de produção tem o humor firmado no jeito, ora ingênuo e ora matuto, do jeca roceiro ? e sua interação com o outro, o estranho da cidade grande que eventualmente vai ludibriá-lo. Tais filmes costumam ter grande apelo popular por retratarem uma fatia da população relegada quase a último plano em todas as instâncias e totalmente ausente das salas de cinema. Trabalhos como os recentes Tapete vermelho (2006) e Dois filhos de Francisco (2005), além de A marvada carne, servem como resgate de um olhar carinhoso e cúmplice àqueles que, de certa forma, guardam alguma virgindade no jeito de enxergar a realidade.
Por sua vez, Almoço executivo coloca o olho da câmera na cidade grande. Do encontro entre um grupo de amigos num restaurante, pipocam diversos incidentes que, na pouca duração do curta, servem de ilustração a um microcosmo do caos urbano. Estão lá os mais característicos comportamentos da selva metropolitana: trânsito congestionado, corre-corre, impaciência, abuso de poder. A dupla Marina Person e Jorge Espírito-Santo, responsável pelo filme, busca fazer um pequeno painel sócio-cultural dentro de um acontecimento cuja banalidade apenas torna mais grave suas conseqüências. Assim como A marvada carne em relação ao rural, Almoço executivo utiliza-se de signos do próprio espaço cênico para refletir o comportamento de quem está dentro desse espaço.
*Marcelo Miranda: crítico de cinema dos sites Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O Tempo (Belo Horizonte).