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A Negação do Brasil e Carolina

Programa 49
A negação do Brasil propõe uma minuciosa
investigação e análise da participação e
evolução do negro na telenovela brasileira
no período 1963-1997. O documentário contribui
para o debate sobre o papel da mídia
e a luta dos atores negros pelo reconhecimento.
Acompanha este programa outro
representante contemporâneo do cinema
negro brasileiro, Carolina. O curta resgata
liricamente o livro Quarto de despejo, de
Carolina Maria de Jesus (lançado em agosto
de 1960 e reeditado oito vezes naquele
ano), escrito no seu barraco numa favela
paulistana, e que expõe temas atuais que
precisam ser superados como a fome, o
preconceito e a miséria.

Filmes do Programa 49


Tempo total aproximado do programa: 106 minutos.

Crítica


IMAGENS PELA AFIRMAÇÃO NEGRA
João Carlos Sampaio

A presença do negro na sociedade brasileira é tema do longa-metragem A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo, e do curta-metragem Carolina, de Jeferson De. Seus autores investigam personagens que ganharam notabilidade, superaram a invisibilidade e a exclusão que atinge a maior parte dos afro-descendentes do País, mas que, no entanto, não ganharam uma condição econômica compatível com a projeção.

O documentário A negação do Brasil sintetiza em imagens as pesquisas acadêmicas de Joel Zito, que publicou um livro homônimo sobre a relação entre o negro e a telenovela. O cineasta demonstra como os afro-descendentes ocupam sempre papéis secundários ou subalternos aos protagonistas.

Apresenta inicialmente a personagem Mamãe Dolores, encarnada pela atriz Isaura Garcia, na telenovela O direito de nascer, exibida entre 1964 e 1965. O tipo perpetua o clichê da ?grande mãe?, espécie de criada que vira uma afetiva referência materna para o personagem branco, mocinho da trama.

Além dos clichês, vão à tela casos exemplares, como o da telenovela A cabana do Pai Tomás, que foi ao ar em 1969. A trama tinha um personagem negro como protagonista, mas os produtores preferiram escalar para o papel central o galã Sérgio Cardoso. Causa estranheza ver o intérprete atuando com a pele pintada de preto e com lábios e nariz com enxertos para falsear traços afro-descendentes.

A negação do Brasil tem uma estrutura narrativa didática, que vai elegendo vários exemplos para comprovar a tese de Joel Zito Araújo. É muito farto em imagens de época e contundente nos depoimentos colhidos de atores como Zezé Motta, Léa Garcia, Ruth de Souza, Milton Gonçalves e Toni Tornado, entre outros.

Funciona também como uma importante ferramenta de discussão da questão do mercado para o ator negro e chama a atenção para as diversas formas de discriminação racial, incluindo as mais sutis e sorrateiras. Reflexões que vêm à tona juntamente com um panorama, que cobre 30 anos da teledramaturgia nacional, dos anos 60 à década de 90.

Jeferson De, tal como faz Joel Zito, também apresenta uma personalidade negra que ganhou visibilidade, a empregada doméstica Carolina Maria de Jesus. Moradora de favela, ela mantinha um diário, relatando todas as vicissitudes da pobreza e as discriminações das quais foi vítima, durante os seus 62 anos de vida (1914-1977).

Um curta-metragem com uma função documental, mas que recorre a elementos de ficção. Mostra a atriz Zezé Motta encarnando Carolina, a partir de uma concepção estilizada da casa simples em que morava, ao lado da filha Vera Eunice. Essa representação ilustra a leitura dos textos do livro Quarto de despejo, escritos extraídos dos diários da personagem, que foram publicados em diversos países. Cinema com proposições artísticas e a serviço da afirmação afro-descendente.

* João Carlos Sampaio: é jornalista e crítico de cinema. Escreve para veículos impressos e atua também como comentarista em programas de rádio e TV.

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