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Porto das Caixas e Arraial do Cabo

Programa 50
O programa reúne os dois primeiros filmes assinados por Paulo César Saraceni, fundamentais para a compreensão do Cinema Novo, por tocarem em temas e linguagens que iriam desabrochar, poucos anos depois, no mais importante movimento cinematográfico brasileiro. Arraial do Cabo (1959) é um documentário sobre a instalação de uma indústria química num reduto de pescadores, enquanto que Pôrto das caixas (1962) é uma ficção sobre uma mulher oprimida pelo marido, ambientada numa comunidade estagnada. São obras nas quais começam a aparecer subjetivismo e poesia resultantes, aqui, dos enquadramentos pictóricos do fotógrafo Mario Carneiro, parceiro de toda vida do diretor.

Filmes do Programa 50


Tempo total aproximado do programa: 97 minutos.

Crítica


UM CINEMA VOLTADO PARA O HUMANO
Marcelo Miranda

Algumas das principais e mais básicas características do cinema moderno são o desapego a uma narrativa contínua de causa e conseqüência e a presença do ambiente ou espaço como deflagrador das ações das personagens. No caso de Pôrto das caixas, primeiro longa-metragem de Paulo César Saraceni, esses dois elementos estão fortemente presentes a cada cena, a cada plano do filme. Apesar de o enredo funcionar com acúmulo de situações (mulher vai sendo maltratada pelo marido até não agüentar mais e decidir livrar- se dele), importa menos a Saraceni como sua protagonista vai conseguir resolver a situação do que o envolvimento e a interação dela com tudo que está ao seu redor.

Pôrto das caixas foi lançado em 1962 e serve como estopim do Cinema Novo, movimento que já surgia forte e iria explodir no ano seguinte, com a trinca Vidas secas, Os fuzis e Deus e o diabo na terra do sol. Porém, diferente destes três, Pôrto das caixas focava o ambiente urbano e retratava de maneira direta, sem maiores cargas de simbolismo, as angústias de pessoas à margem dos grandes centros e das possibilidades de ascensão. A personagem principal, interpretada com grande expressividade por Irma Álvarez, é reflexo disso: dona de casa submissa, ela tenta, por meio do forte poder de sedução, fugir do aparente determinismo no qual está enjaulada.

No caminho, ela se insinua a vários homens, conspira contra o marido, movimenta-se pelo espaço onde vive, nas redondezas de uma estação de trem que parece servir de principal fonte de renda da região. Saraceni mistura ficção com um tom realista marcante, em especial ao se fixar no rosto de pessoas comuns, prováveis moradores incorporados à própria realidade criada pelo diretor. É o típico cinema que coloca a câmera nas ruas, em contato com o povo e, dali, ilustra sua própria temática. A fotografia e os enquadramentos de Mario Carneiro, junto à trilha sonora de Tom Jobim, colaboram para o tom melancólico e triste que perpassa todo o filme.

Triste, sim, mas jamais piedoso. Saraceni não demonstra compactuar com sua protagonista. Ainda que o andamento do filme pareça dar razão a ela por querer desaparecer com o marido violento, a construção tanto da mulher quanto do homem guarda ambigüidades que evitam o maniqueísmo. Ele é machista e duro, mas esconde nos olhos e nos gestos a fraqueza de não saber viver sem a esposa; ela é carente e sofrida, mas não perde a oportunidade de tentar cooptar qualquer um para dar cabo do marido ? e, quando nenhuma de suas investidas dá certo, ela própria toma o controle da situação e, conseqüentemente, de seu destino. O caminhar pelos trilhos do trem (os mesmos trilhos que levaram o marido) é outro instante do filme em que a personagem surge impregnada pelo ambiente onde habita. No caso, pela neblina que toma o espaço e parece representar a incerteza dos tempos que se abrem aos seus olhos ou mais além: ao seu corpo e sua mente.

Arraial do Cabo, curta-metragem também presente neste DVD, é, assim como Aruanda, de Linduarte Noronha e datado do mesmo ano, marco do Cinema Novo. Dirigido por Saraceni em parceria com Mario Carneiro, registra o cotidiano de pescadores em conflito com operários na cidade carioca que dá título ao filme. É outro demonstrativo do cinema moderno como momento de embate e interação entre o homem e o espaço. Aqui, no caso, isso fica claro nas seqüências de pesca e preparo dos peixes. O rosto, sempre elemento-chave, aparece em primeiro plano, a deixar claro ao espectador o intuito de fazer um cinema sobre o homem - especificamente, o brasileiro - com suas deficiências, fragilidades e virtudes.

*Marcelo Miranda: crítico de cinema dos sites Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O Tempo (Belo Horizonte).

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