Esta seleção apresenta obras assinadas por
importantes nomes da cinematografia brasileira,
como o mestre pioneiro Humberto
Mauro (A velha a fiar, de 1964). Estão presentes
o cinemanovista Joaquim Pedro de
Andrade (Brasília: contradições de uma cidade
nova, 1967) e um dos diretores mais
aclamados da atualidade, Jorge Furtado
(Ilha das Flores, 1989), além do paraibano
Linduarte Noronha e do carioca Joaquim
Assis, responsáveis por dois clássicos do
documentário nacional ? respectivamente,
Aruanda (1960) e Ô xente, pois não (1973).
Filmes do Programa 54
Tempo total aproximado do programa: 85 minutos.
Crítica
CICLOS DE UMA VIDA PRIMITIVA
Marcelo Miranda
A idéia de um ciclo sem fim parece ser a sina dos problemas do Brasil. Tudo começa num ponto crítico para, após várias voltas, retornar ao mesmo ponto crítico, e assim indefinidamente. Este Clássicos e Modernos reúne cinco curtas-metragens seminais no desenvolvimento do cinema brasileiro, mas vai além: serve de ilustração para o tal ciclo, ao qual o povo do País está sujeito. Cada cineasta aqui presente, a seu modo, lida com a noção de que a população em geral vive em universos próprios, alheia da riqueza e largada das políticas sociais. ?Uma vida primitiva?, fala-se em Aruanda.
Justamente Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, talvez seja a súmula de todos eles. Precursor do Cinema Novo, influenciador de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, o paraibano Noronha foi atrás de antigas comunidades negras do interior do seu Estado. Em imagens de forte poder lírico e simbólico, o filme acompanha o êxodo de uma família e seu recomeço ? desde a construção da nova casa até a fabricação de objetos em cerâmica, momentos desde sempre antológicos. Aqui, a idéia de ciclo já aparece: os personagens saem de um ambiente e fixam-se em outro apenas por sobrevivência, pois tudo continuará igual.
A velha a fiar (1964) é o menos politizado dos filmes, o que não significa que seja indiferente à realidade que retrata. Utilizando com maestria a cantiga que dá título ao curta, o mineiro Humberto Mauro faz uma brincadeira sucinta e direta para falar sobre a insistência do sertanejo e do povo humilde naquilo em que acreditam. Por mais que haja fatores externos a atrapalhar, sempre haverá a luta ? tudo mostrado por Mauro num exercício de montagem de incrível e irresistível empatia.
Por outro lado, Brasília: contradições de uma cidade nova (1967), do carioca Joaquim Pedro de Andrade, vai diretamente ao centro do poder nacional tentar entender esse mistério chamado Brasil. Na então recém-inaugurada capital, o diretor realiza o inventário do que seja Brasília naquele momento histórico ? isso, a partir do olhar de quem se mudou para lá acreditando numa vida mais promissora. É filme de investigação, que parte de uma questão ainda não muito clara (Brasília é um retrato do Brasil?) para perceber que, naquele lugar tão milimetricamente planejado, está fincada boa parte das contradições aludidas no título do curta.
Ô xente, pois não!, de Joaquim Assis, guarda sua força no discurso de trabalhadores rurais de Pernambuco em choque com as imagens captadas pela câmera. As falas completam o registro, e o registro completa as falas, nos planos detalhados dos trabalhadores em questão. É o filme que mais diretamente transmite outra noção muito precisa dos demais no programa: personagens em conflito com os ambientes onde vivem. É um enfrentamento contínuo contra as adversidades surgidas por ações externas e pelo contexto político, econômico e social no qual essas pessoas estão inseridas.
É o que ainda se vê em Ilha das Flores (1989), do gaúcho Jorge Furtado. Por uma linguagem hoje tornada pop pelo próprio realizador (cujo filme mais famoso é O homem que copiava), o curta parte de um conceito de humor e vai, literalmente, adentrar nas entranhas de uma comunidade que vive do lixo em Porto Alegre. O filme parece exalar um certo ar de pós-modernidade com ânsia de atingir a quem o vê através das fragilidades e contradições do próprio espectador. É um ponto de chegada curioso para um ciclo iniciado no interior da subdesenvolvida Paraíba (Aruanda) e finalizado na periferia da moderna Porto Alegre (Ilha das Flores).
*Marcelo Miranda: crítico de cinema dos sites Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O Tempo (Belo Horizonte).