Que o brasileiro gosta de rir, isso é mais do
que sabido. E o curta-metragem tem sido
um campo rico historicamente para a expressão
cômica. No entanto, muitos filmes acabam
fazendo desta relação o espaço para o
simples contar de uma piada, deixando de
lado a expressão que só a linguagem cinematográfica
permite. Nessa coletânea, atravessamos
o Brasil do extremo norte (Açaí
com jabá) ao Sul (O oitavo selo) vendo uma
série de narrativas que só extraem sua graça
da possibilidade de narrar um conto cômico
a partir das imagens e sons. Da realidade
urbana de BMW vermelho ao ?causo? de
bar de No princípio era o verbo, de uma história
do passado (Dov?e Meneghetti?) ao
aparato tecnológico moderno (P R Kadeia),
nós podemos rir de quase tudo através do
cinema destes filmes.
Filmes do Programa 55
Tempo total aproximado do programa: 95 minutos.
Crítica
ENTRE O AMBIENTE POPULAR E A PIADA COM A MORTE
Cléber Eduardo
Há humores e humores no cinema. Podem estar nos atores, nas situações, em uma maneira de enquadrar. Do que se ri, com quais procedimentos, com que efeitos? Os curtas selecionados para este programa nos induzem a essas perguntas.
Em Dov?e Meneghetti?, de Beto Brant, o humor está no saudosismo. São Paulo, anos 1920. Há uma clara maneira de reunir situações, de filmá-las e de montá-las que produzem a sensação de um passado idílico em sua irreverente manifestação de rebeldia. O criminoso-protagonista, de origem italiana, popular, é quase um clown. A fotografia em convenção um tanto fabular acentua a atmosfera postiça e cândida de certos momentos. Busca-se o humor no resgate de uma inocência perdida. Faz-se poesia com a subversão da lei e com a malandragem empregada para ridicularizar a polícia. Doce malandragem.
Em P R Kadeia, de Eduardo Caron, também há rebeldia irreverente, como em Dov?e Meneghetti?, mas situada na contemporaneidade. Talvez por isso a reação subversiva ao mundo, novamente protagonizada por personagens de camada popular (com gestos e aparência caricatas e autoparódicas), não encontre lugar para a poesia, como no saudosismo de Brant, mas para um caos não desprovido de sonho. Os rebeldes da ondas radiofônicas piratas tornam-se pop stars. Após momentos mais realistas (imagens da polícia), impera o ?postiço?, com uma reviravolta lúdica e farsesca. Na verdade, é um modo de produzir uma recusa a um simbolismo cético. E do que se ri? Talvez da própria crença na possibilidade de resistência pela subversão, com o efeito de ingenuidade de Dov?e Meneghetti?, sem a crueldade e agressividade do cinema marginal dos anos 1960/70.
O ambiente de BMW vermelho, de Reinaldo Pinheiro, também é popular e contemporâneo, e povoado por caricaturas da representação desse espaço, como em P R Kadeia, mas, em vez de os personagens manifestarem rebeldia e subversão, agem com resignação. O humor está na premissa do absurdo social. Uma família de moradores de favela ganha em sorteio um carrão, mas não tem dinheiro para gasolina, seguro e impostos, acabando por transformá-lo em um barraco. Com a câmera eventualmente preocupada em descrever o ambiente, procura-se acentuar essa dissonância entre o carro e o lugar onde vive seu dono.
Já Açaí com jabá, de Alan Rodrigues, Marcos Dalbes e Walério Duarte, e No princípio era o verbo, de Virgínia Jorge, aproximam-se do ambiente popular, como os curtas anteriores, a partir do universo de dois botecos, ambos habitados durante os filmes por protagonistas de anedotários verbais ou visuais. Em Açaí com jabá, o humor está no choque cultural, ou estomacal, vivido por um forasteiro no Pará, empenhado em assimilar a ?gastronomia típica? do povo. O tom é de relativo exagero para se deixar clara a intenção cômica. Já em No princípio era o verbo, o bar é espaço de piadas, discussões, de imaginação, optando mais pela contenção e menos pelo exagero, menos pelas interpretações e mais pelas situações. Ri-se do que vê, do que se ouve (principalmente), não da representação.
O único curta do programa a sair do universo popular é O oitavo selo, de Tomás Creus, que parte de uma imagem da Morte em O sétimo selo, de Ingmar Bergman. Depois de fazer piada com o título e com o ponto de partida, assumindo sua condição de filme para espectadores familiarizados aos canônes do cinema europeu, supera essa delimitação de seu entendimento ao transformar as situações, vividas entre a Morte e um rapaz em uma boate, na verdadeira reserva de seu humor e irreverência, não sem uma dose controlada e até carinhosa de crueldade.
*Cléber Eduardo é editor da revista eletrônica Cinética, colaborador do Correio Braziliense, curador dos festivais de Ouro Preto e Tiradentes, e diretor com Ilana Feldman do curta Almas Passantes.