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Diferenças

Programa 56
DiferençasAmpliar Foto do Programa 56
Classificação
14 anos
Séries
· Cenas para a Adolescência
Uma das capacidades mais importantes do cinema é a de conseguir nos aproximar da vida de pessoas cuja realidade desconheceríamos de outra maneira. Seja pelo acesso a filmes de países distantes ou pelas narrativas em outros tempos históricos, o cinema sempre funciona como uma janela aberta ao outro. Mesmo que os filmes presentes nessa coletânea nos apresentem histórias bem próximas geograficamente e que se passem em tempos contemporâneos, ainda assim o que veremos será a possibilidade do contato com realidades bem distintas. Assim, conheceremos o mundo através da perspectiva de deficientes visuais (Reminiscência) e auditivos (O resto é silêncio), de anões (Criaturas que nasciam em segredo), daqueles que a sociedade considera como loucos (Príncipe do fogo) ou tão-somente daqueles que partilham hábitos ou crenças bastante particulares (Labirinto e Patuá). Ao final, vemos que estes ?outros?, mesmo que a princípio distantes, são de fato bastante parecidos com todos e cada um de nós.

Filmes do Programa 56



Crítica


DIFERENTES FORMAS, PERSONAGENS INCOMUNS
Cléber Eduardo

Uma sessão de curtas-metragens intitulada Diferenças não deixa de ser uma forma de autodefinição. Se pode parecer até óbvio que, por lidarem com personagens extremamente incomuns, as diferenças do título estejam nos próprios filmes, não somente na relação entre eles, também é de uma evidência óbvia que, apesar de pontos de partida próximos, as formas de aproximação e tratamento são completamente diferentes. A soma das narrativas nos mostra um personagem com múltiplas identidades e de imaginário selvagem (Príncipe do fogo, de Silvio Da-Rin), anões desnudando em palavras o íntimo de suas condições (Criaturas que nasciam em segredo, de Chico Teixeira), ufólogos cearenses e moradores da região de Quixadá mostrando a convicção e relatando testemunhos sobre OVNIs (Labirinto, de Margarita Hernández e Tibico Brasil), uma senhora cega construindo pelas palavras as imagens para suas lembranças (Reminiscências, de Eduardo Nunes), um casal vivendo o ritual de um estranha relação carnal (Patuá, de Snir Wein) e um casal de adolescentes surdos-mudos interagindo no silêncio (O resto é silêncio, de Paulo Halm).

Príncipe do fogo emprega imagens de arquivo, fotos, um narrador com texto de resumo biográfico, perguntas do diretor feitas claramente com a função de obter respostas já conhecidas e depoimentos tanto de terceiros quanto de seu protagonista-assunto (Febrônio Indio do Brasil), de modo a expor a multiplicidade desse personagem que passou mais de dois terços da vida em manicômios. Criaturas que nasciam em segredo dispensa o áudio das perguntas, mas mantém a função do narrador, que, entre uma entrevista e outra, entre uma imagem delicada e outra reveladora da condição da baixíssima estatura, contextualiza a imagem do anão e seus significados. No caso de Príncipe do fogo, predomina o respeito com indignação. No de Criaturas que nasciam em segredo, prevalece um olhar derramado sobre os entrevistados. O filme os ama e, pelo uso das músicas, pela maneira de filmá-los, pela escolha das frases, empenha-se em nos fazer amá-los.

Reminiscências e O resto é silêncio, em certo sentido, têm alguma afinidade, além do diretor do primeiro, Eduardo Nunes, ser produtor executivo do segundo. Ambos procuram encontrar equivalentes estéticos para nos induzir a vivenciar a experiência sensorial dos personagens. Em um, trabalha-se a imagem. Em outro, o som. Em Reminiscências, ouve-se uma senhora sem visão descrever lembranças de infância, que resultam em imagens de crianças, cômodos e da natureza, pontuadas por escurecimentos da tela. O resto é silêncio acompanha um rapaz que, na interação com uma garota e com seu entorno, substitui o som por vibrações, movimentos e palavras, levando o filme a eventualmente silenciar. Já Labirinto e Patuá, o primeiro marcado por entrevistas e o segundo pela ficção com ares sinistros, partem do exótico. No documentário, valoriza-se a febre da convicção nos ETs, não sem ironia. Na ficção, apesar do caráter de terror B das situações, com o canibalismo metaforizando o caráter brutal das paixões, reina uma love story, ainda que macabra, ou, justamente, por conta disso.

* Cléber Eduardo: é editor da revista eletrônica Cinética, colaborador do Correio Braziliense, curador dos festivais de Ouro Preto e Tiradentes, e diretor, com Ilana Feldman, do curta Almas Passantes.

           
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