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Histórias do Cinema Brasileiro

Programa 57
Fazer cinema no Brasil não é para qualquer
pessoa. Desde as dificuldades de colocar seu
projeto de pé ao problema de fazê-lo chegar
a seu público, a atividade cinematográfica
nacional sempre foi marcada pelas peripécias
e perseveranças típicas de uma trajetória
incerta, porém cheia de grandes momentos
e superações. Os curtas presentes
nessa coletânea contam algumas dessas histórias,
sejam elas de figuras reais de importância
histórica inegável (Mário Peixoto, em
O homem do morcego; Roberto Santos, em
Roberto), passando pelas desventuras de
um anti-herói contemporâneo (Simião Martiniano),
e finalmente chegando à ficção, seja
ela baseada em fatos reais (Como se morre
no cinema) ou em lembranças de uma vida
nos cinemas do interior (O astista contra o
caba do mal). Em todos eles, vemos o fazer
cinematográfico de maneira que só poderia
existir no Brasil.

Filmes do Programa 57


Tempo total aproximado do programa: 83 minutos.

Crítica


O CINEMA É O PAÍS DO FUTURO
Rodrigo de Oliveira

Se a história do cinema brasileiro fosse um filme, ele teria a fórmula ditada por Simião Martiniano: violência e amor em porções bem equilibradas. É uma história de mortes e renascimentos, de um cinema tão pulsante quanto incrivelmente frágil diante do menor sinal de tempestade. E se isso já virou uma sina, talvez seja pela freqüente perda de memória de que sofremos, incapazes de reconhecer que temos um passado ? e que ele foi construído por personagens cuja história também se perdeu no caminho.

Os curtas-metragens presentes nesse DVD dão conta, cada um à sua maneira, desse nosso problema de memória. Roberto põe a voz de Roberto Santos sobre trechos de entrevistas e imagens de seus filmes. Amilcar Claro religa pontos dispersos, comentando a trajetória de seu personagem a partir do material fornecido por ele mesmo (e, assim, a não-filiação ao Cinema Novo, o papel da televisão na divulgação do cinema, o peso da repressão ditatorial, todas essas palavras já estavam lá, nas imagens que Roberto Santos filmara).

Ruy Solberg vai mais longe ao tratar de um personagem que nunca nos deu pistas sobre si mesmo. Recluso à locação de seu mítico filme, afastado dos holofotes, a entrevista de O homem do morcego talvez seja um dos únicos registros diretos de Mario Peixoto. Bastidores de Limite, fotos da filmagem, tudo parece surpreendente. Mas impressionante mesmo é estar diante da figura tão simpaticamente desconhecida de Mario. Solberg imprime ali uma aura de trivialidade quase cômica, mas tudo o que vemos é da ordem do extraordinário.

E assim, se nem daqueles pilares da história sagrada se pode dizer que de fato os conhecemos, que dirá dos que não entraram para os livros. Simião Martiniano coloca no mapa esse ?camelô do cinema? e, mais que isso, integra-o a uma idéia de cinema brasileiro. É o próprio Simião que se percebe como parte dessa grande narrativa histórica, quando diz que faz filme de aventura ?porque quer mudar um pouco o filme brasileiro?.

Em chave humorística, pode se dizer o mesmo da estrela de Como se morre no cinema. O papagaio de Vidas secas tenta colocar seu nome na história. Luelane Loiola faz um curioso anedotário dos bastidores de um dos maiores filmes do nosso cinema elegendo como condutor dessa narrativa um protagonista improvável, mas que esteve ?lá dentro?.

E se o sentido é o de uma roda eterna, que recupera figuras estabelecidas e também contribuidores anônimos, há ainda os casos da manifestação espontânea, casual. O protagonista de Cine Holiúdy ? O artista contra o caba do mal preenche de sotaque cearense a trama de um filme de luta chinês, adapta as expressões e gestos estrangeiros para uma apresentação brasileiríssima, aproxima o filme do público. Roberto Santos vaticinara que ?o cinema de agora sofre da falta de afetividade do diretor com seu povo?. Numa história tão ingrata com quem a constrói, esse multi-homem supre essa falta. ?Dirige? um filme que inventa ali na hora, e transborda de afeto pelo espectador. Projeta para o futuro a permanência renovada desse amor pela idéia de se fazer cinema no Brasil, seja do jeito que for.

*Rodrigo de Oliveira é crítico de cinema, redator e co-editor da Revista Contracampo e colunista do jornal capixaba Século Diário.

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