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Aleluia Gretchen

Programa 59
Aleluia GretchenAmpliar Foto do Programa 59
Classificação
16 anos
Séries
· Visões políticas


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O terceiro longa-metragem de Sylvio Back traz a marca da controvérsia política que marcaria a obra do cineasta catarinense a partir dessa saga de uma família de imigrantes alemães que fogem da Alemanha nazista e se fixam no sul do Brasil. Para mostrar as ligações da Ação Integralista Brasileira com o Terceiro Reich, ao longo de quatro décadas, o diretor recorre a uma linguagem tão polêmica e ousada quanto o próprio tema. Realizado durante a ditadura militar, em 1976, o filme permanece como um dos pontos altos na carreira de Back, que escreveu o roteiro com o futuro novelista Manoel Carlos, inspirado nas suas memórias e origens culturais. Vale destacar a ótima utilização na trilha sonora de A Cavalgada das Walkírias, de Richard Wagner, em ritmo de rock, em versão do grupo O Terço.

Filme do Programa 59


Tempo total aproximado do programa: 118 minutos.

Crítica


O nazismo sob um olhar familiar e intimista
Marcelo Miranda*

A principal característica de "Aleluia, Gretchen" é sua objetividade diante de um contexto histórico delicado e bastante controverso. Narrado como épico familiar, com a ação transcorrendo dos anos 1930 até a década de 1970, este filme de Sylvio Back aponta as lentes para uma família alemã fugida para o Brasil. Por aqui, o clã monta um hotel, local por onde circulará todo tipo de gente e servirá de reduto para artimanhas ligadas à prática do nazismo. Neste caminho, Back incorre no risco ou de glamourizar as ações da família ou condená-las de imediato.
O cineasta não se permite cometer quaisquer desses erros. Numa linguagem que prima pela secura e frieza na forma como capta cada personagem, Back evita juízos de valor. Interessa-lhe registrar o dia-a-dia daquelas pessoas e fazer do espectador testemunha do desenvolvimento de cada relação exposta. É por isso que cenas perturbadoras, como a ceia de Natal sob a bandeira com a suástica estendida na parede ou o treinamento do garoto na juventude hitlerista, soam quase naturais aos olhos de quem assiste ao filme – não porque tais atitudes devam, de fato, serem consideradas naturais, e sim porque Back as filma de dentro, respeitando seus protagonistas, estes seres que, num pensamento típico dos respectivos contextos onde se encontram, acreditavam defender a causa certa.
Ainda que evite julgamentos, Back faz de "Aleluia, Gretchen" uma pequena amostra da forma torta como a política nazista poderia influir em vários detalhes de um núcleo específico de pessoas. Cada membro da família em questão parece resumir em si elementos facilmente identificáveis do caráter fascista – a busca pela pureza da raça, a não-aceitação de vozes dissidentes, a opressão e a convicção em ideais focados quase exclusivamente numa chave unilateral e inequívoca. Nisso entra o ser estranho, o viajante interpretado por Carlos Vereza, que serve de exemplo do intruso inserido num universo ao qual ele parece não se adaptar – o que lhe causará problemas, evidentemente.
Ao fim, vemos a celebração de todos ao som do brasileiríssimo samba, entremeado por trechos da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner – numa jogada esperta e simbólica, Sylvio Back nos faz ouvir, desde a abertura e em vários momentos do filme, a composição mais famosa do compositor alemão, adotado pelo nazismo como exemplo intelectual do anti-semitismo. A imagem no desfecho é de pura felicidade e esplendor. Só que o corpo franzido e cabisbaixo de Carlos Vereza, sofrido após uma série de torturas, mostra o quanto enganadora é toda aquela catarse. Back fala pela imagem o que o filme evita ecoar por palavras: em políticas de caráter tão extremo, a humanidade é sacrificada, mas jamais deixa de existir, ainda que em seu estado mais melancólico.

*Crítico de cinema dos sites: Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O TEMPO (Belo Horizonte)

           
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