Bem-sucedida transposição da novela Alves & Cia. escrita por Eça de Queiroz para o filme dirigido pelo mineiro Helvécio Ratton: no Brasil de fins do século 19, o rico comerciante Godofredo Alves descobre sua amada esposa Ludovina nos braços de seu sócio Machado. Furioso, expulsa a mulher de casa e desafia o sócio para um duelo mortal. A partir daí, com este mote, o roteiro propõe várias peripécias, valorizando os elementos clássicos do melodrama: a carta-revelação, a circularidade, a moral da história. Acompanha esta edição o divertido curta Rua do Amendoim sobre a rua de Belo Horizonte que ficou famosa por um bizarro fenômeno ótico; ela dá a impressão de ser uma subida, quando, na verdade, trata-se de uma descida.
Filmes do Programa 60
Tempo total aproximado do programa: 111 minutos.
Crítica
A arte de contar boas histórias
Marcelo Miranda*
O cinema, para muitos espectadores e realizadores, define-se essencialmente como mais um meio de se contar histórias – boas histórias, preferencialmente. O diretor mineiro Helvécio Ratton segue essa vertente no seu trabalho desde que estreou em longa-metragem com o infantil “A Dança dos Bonecos” (1986). Talvez a propensão de Ratton à narrativa tipicamente clássica tenha atingido o auge dentro da sua obra “Amor & Cia”, adaptação de livro do português Eça de Queiroz.
O diretor preocupa-se, acima de tudo, com o enredo em questão. Para tanto, posiciona a câmera em ângulos tradicionais, segue a montagem num crescendo basicamente de apresentação-desenvolvimento-conclusão e utiliza diversos recursos de linguagem (especialmente a música, criada por Tavinho Moura) para dar ênfase dramática às situações apresentadas. É um tipo de cinema que se assume, desde a primeira cena, como exatamente o que é: a narrativa direta de uma trama previamente moldada.
Se bem trabalhada, a narrativa clássica gera boas reações de quem a vê e retira das imagens expressividade suficiente para emocionar o espectador. No caso de “Amor & Cia”, a vida do empresário Alves vai ao avesso quando, no dia do aniversário de seu casamento, flagra a esposa aos beijos com o sócio. É a partir e sob este conflito que se fixa o roteiro. As desventuras de Alves, seus ataques de raiva, a ânsia por desafiar o rival, os conselhos dos amigos, a melancolia, o arrependimento, tudo se soma na trajetória daquele pobre homem traído.
Para tanto, o filme conta com a presença e talento imprescindível de Marco Nanini. Estivesse o protagonista a cargo de algum intérprete limitado e toda a potencial força do filme seria destruída. Mas com Nanini, o diretor consegue manter sempre o interesse de quem assiste à produção. O ator dá corpo, voz e expressão a Alves – e é no olhar dele que a câmera se fixa para registrar cada momento do filme.
É exemplar a chegada do personagem em casa, minutos antes de ver a amada em situação reveladora: Alves circula pelos diversos cômodos e, em plano-seqüência, Ratton exibe toda a perspectiva de ambiente e espaço onde se desenrolará, nos minutos seguintes, a angústia do empresário. A cena representa uma espécie de ilustração do que aguarda o protagonista, pois aquela mesma casa, que naquele momento é pequena para todo o seu amor, logo vai se tornar gigantesca quando iniciar sua solidão – e essa mudança de perspectiva é muito bem encarnada por Nanini.
Outra característica marcante de “Amor & Cia” é a intensa mineiridade com que Helvécio Ratton lida a partir da história de Eça de Queiroz. Transportando o texto original para a elegante São João Del-Rei, o cineasta permite a Alves trafegar por ruas e cenários históricos que enriquecem a experiência do contato com o filme. Essa presença de Minas Gerais dentro das imagens também molda o curta-metragem “Rua do Amendoim”, presente neste mesmo DVD. Dirigido por João Vargas Penna, o filme, outro a tratar de uma história de amor, parte de um dos pontos turísticos mais interessantes de Belo Horizonte (a rua que dá titulo ao curta) para falar do encontro decisivo de um garoto apaixonado com o objeto de sua paixão, em plena efervescência sexual.
*Crítico de cinema dos sites: Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O TEMPO (Belo Horizonte).