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Bicho de sete cabeças e O profeta das cores

Programa 62
Duas histórias que têm em comum o desacerto das relações entre pais e filhos e os caminhos tortuosos que são levados a percorrer. O longa-metragem “Bicho de sete cabeças” é inspirado em fatos reais vividos por Austregésilo Carrano Bueno e contados em seu livro “Canto dos malditos” (1993). Na trama central, o equívoco do pai e da família, que leva o jovem a uma experiência trágica em manicômios. Lançado em 2001, permaneceu oito meses em cartaz nas salas de cinema, atingindo 450 mil espectadores. O documentário “O profeta das cores” – que integrou a pesquisa de Laís Bodanzky para a realização do longa “Bicho de sete cabeças” - conta a história de Antonio Nascimento Silva, cujo destino é ainda mais complicado: 20 anos entre orfanato, juizado, casas de detenção, manicômios. Até ser livre e encontrar na pintura a sua forma de expressar o absurdo da condição humana que sofreu.

Filmes do Programa 62


Tempo total aproximado do programa: 116 minutos.

Crítica


A intolerância que vira loucura

Marcelo Miranda*

A urgência da câmera como testemunha dos fatos é a principal característica de linguagem dos dois filmes deste programa – o curta-metragem documental O Profeta das Cores, de Leopoldo Nunes, e a estréia de Laís Bodanzky em longa com a ficção Bicho de Sete Cabeças. Em ambos, temos personagens considerados de exceção na sociedade: no primeiro, o artista plástico saído do manicômio; no outro, o jovem enviado pelo pai a uma clínica de tratamento psiquiátrico depois de ser flagrado como usuário de maconha.
Tanto Nunes quanto Bodanzky tentam expressar angústias e dores através de planos aproximados de cada um deles e daqueles que os rodeiam. Em Bicho de Sete Cabeças, o procedimento é evidente no primeiro “passeio” do protagonista Neto (Rodrigo Santoro) pelo pátio do manicômio onde está confinado. Ali, junto com os olhos de Neto, o espectador toma contato com o ambiente fétido e deprimente, em que o ser humano não parece se diferenciar muito de um animal maltratado. No filme de Nunes, imagem semelhante provoca menos choque, mas existe quase o mesmíssimo movimento de câmera enquadrando internos da clínica no intuito de nos tornar íntimos daquele universo.
A relação de afeto dos realizadores em relação a seus retratados é outra semelhança forte entre os filmes. No Bicho..., especificamente, Bodanzky não julga Neto pelos seus atos, preferindo o registro realista e pouco determinista das ações do rapaz. Se ele passa os horrores que nos chegam via imagens trepidantes e cada vez mais incômodas no jeito como a diretora filma, isso não se deve a um “castigo” imposto a Neto. Sua trajetória depende menos das escolhas da cineasta enquanto instância narrativa do que da autonomia dada aos personagens dentro da realidade do filme. O pai do garoto (Othon Bastos) é mostrado como homem duro e repressivo, mas Bodanzky lhe permite ao menos uma cena de entrega humanista – justamente o último plano do filme, com Neto e o pai sentados numa calçada, absolutamente despedaçados depois de todo o sofrimento.
São instantes como esse que tornam Bicho de Sete Cabeças um trabalho notável. A particularidade de se assumir como filme-denúncia a respeito da situação manicomial no Brasil fica secundária em vista do talento de Bodanzky na construção dessa mesma denúncia. Significa dizer que, acima de querer expor uma situação-limite, a diretora se impõe como cineasta e desenvolve discurso próprio e tipicamente cinematográfico, acreditando, logo de princípio, na força da história enquanto enredo.
A presença de Rodrigo Santoro é fundamental no mergulho de linguagem feito por Bodanzky. O corpo do ator dentro do quadro, e o jeito como Laís o filma, delimitam um trabalho de expressão corporal que transmite, várias vezes sem muitas palavras, os sentimentos de Neto: desobediência quando foge correndo dos gritos do pai portão afora; raiva quando lança para o alto pratos e talheres da clínica; desespero ao ser preso depois de uma tentativa de fuga; desilusão ao tentar se suicidar. Nos movimentos e gestos de Santoro reside a alma de Bicho de Sete Cabeças.

*Crítico de cinema dos sites Digestivo Cultural, Cinequanon e Filmes Polvo e repórter de Cultura do jornal O TEMPO (Belo Horizonte).

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