
Classificação
10 anos
Diretor amazonense radicado em São Paulo, Djalma Limongi Batista faz uma divertida homenagem ao pioneiro Humberto Mauro (diretor de Brasa Dormida, de 1928), em uma comédia inventiva e autoral, pontuada por boas doses de erotismo e nonsense. Narrada com leveza e ironia, a história de um triângulo amoroso vivido por uma prima e dois primos (interpretados por Maitê Proença, Edson Celulari e Paulo César Grande) é um ótimo pretexto para uma evocação da iconografia do começo da década de 1960, com direito a uma trilha sonora recheada de clássicos da Bossa Nova. Esse segundo longa-metragem do diretor revelado em Asa Branca, um Sonho Brasileiro é uma obra singular no panorama do cinema brasileiro dos anos 1980.
Filme do Programa 63
Crítica
IMAGENS DO PASSADO, OLHOS DO PRESENTE
Rodrigo de Oliveira
Diante da imagem do triângulo amoroso formado por Ticão, Toni e Bebel em Brasa Adormecida, brindando seu relacionamento em cima de um mapa metálico do Brasil, é impossível não imaginar alguma metáfora que o diretor Djalma Limongi Batista queira construir entre a experiência libertária do trio e a trajetória brasileira da redemocratização, em plena efervescência naquele 1987. Essa projeção de uma história particular sobre o espectro histórico nacional Batista já realizara em Asa Branca – Um Sonho Brasileiro, onde a ascendência de um jogador de futebol se fazia em retrato da identidade do popular sofrido, mas predestinado. Os sete anos que separam um filme do outro, no entanto, parecem ter tornado a relação com o país muito menos direta.
De fato, se há um território que Brasa Adormecida visita, se há um continente sobre o qual os três protagonistas se instalam e brindam seu amor, este lugar não é outro que não o próprio cinema. Filho de seu tempo, o filme dialoga intimamente com a pós-modernidade e seu reflexo direto na arte cinematográfica, o maneirismo. O que vemos em Brasa Adormecida é a consciência de que toda a energia criativa em torno da imagem parece ter se esgotado. É o boom da superficialidade televisiva e do videogame, e o Cinema Novo, aquela reserva de genialidade absoluta, não é mais que uma lembrança melancólica, passível de piada. Se há a sensação de que tudo já foi feito, resta trabalhar sobre o passado, sobre o já criado, e assim, eventualmente, nutri-lo de sentidos estritamente contemporâneos.
O mais curioso na estratégia de Brasa Adormecida, no entanto, é que seu “passado” não corresponde ao cinemanovismo, mas sim ao distante ambiente do cinema artesanal mudo da década de 1920, com o qual a estética super-colorida e excessiva dos anos 1980 forma um bizarro par perfeito. A correspondência, não pela trama, mas pelo espírito, é com Braza Dormida, filme de 1928 que Humberto Mauro realizou em Cataguases. O filme de Batista podia bem ser chamado (como no subtítulo do filme de Mauro) de “Flagrantes da Vida Interiorana”, por seu olhar clínico e acurado sobre a experiência no campo. Um olhar que é, na urgência do fim do século 20, também bastante estilizado. Pela fazenda desfilam tipos clássicos da comédia de costumes, o almirante quarentão, a solteirona, o padre amalucado, a jovem viúva. Todos eles têm laços familiares: são “primos”. A cômica estranheza destas figuras talvez se deva a esta matéria original da qual todos são fruto (uma mesma família).
E que não se confunda referência com respeito solene. Numa sessãozinha particular, organizada pela velha coroca da fazenda, projeta-se Braza Dormida numa telinha de pano. Mas uma das personagens, atacada pelos efeitos de uma poção misteriosa, começa a ter alucinações em cima das cenas que vê. Não demora muito para que a personagem dos anos 1980 mergulhe no filme dos anos 1920: reluzindo em todas as cores fluorescentes possíveis, a mulher passeia pela imagem em preto-e-branco, interage com os atores da fita antiga, traz nova vida àquela trama.
Num universo multi-referencial, onde toda idéia tem vez, um filme brasileiro mudo pode ser emendado à Casablanca, com “As Time Goes By” sendo tocada ao piano. E mais: a pianista pode sair da frente do instrumento e suas luvas, agora animadas, seguirão sozinhas o trabalho. Passarinhos de desenho podem circular a cabeça do padre, um autêntico saci pode ser a salvação da solterice de uma das primas – até um astronauta no meio da bucólica cena interiorana é permitido. Tão delicioso em toda sua variedade irregular de dispositivos, Brasa Adormecida vive a cultura do excesso como quem não se conforma em ter que encerrar o banquete mesmo quando há tanto ainda a ser saboreado.