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Cinema, Aspirinas e Urubus e O Crime da Imagem

Programa 64
Com equilíbrio entre forma e fundo raro para um estreante, o pernambucano Marcelo Gomes realizou uma das melhores abordagens do sertão nordestino e um dos grandes momentos do cinema brasileiro atual. O encontro entre um alemão, fugido da Segunda Guerra Mundial, e um nordestino que quer ir para a cidade grande em busca de oportunidades, rende um belo e original road-movie (filme de estrada). O diretor investe no despojamento formal, mas cria uma nova estética, resultado de um fecundo diálogo com a paisagem agreste. O sertão nordestino também é cenário do curta “O crime da imagem”, realizado por outro pernambucano, Lírio Ferreira. O filme mostra Antônio Conselheiro (Tuca Andrada) antes de se tornar o líder de Canudos.

Filmes do Programa 64


Tempo total aproximado do programa: 112 minutos.

Crítica


Cineastas de Pernambuco se aventuram pelo sertão

João Carlos Sampaio*

Um comerciante que usa o cinema como meio publicitário para vender aspirinas sob o céu do sertão ensolarado, sem nuvens e povoado por urubus. Daí surge o título Cinema, Aspirinas e Urubus, do cineasta Marcelo Gomes, que forma dupla nesta edição com Lírio Ferreira e o seu O Crime da Imagem. São dois marcantes momentos do cinema pernambucano.

O longa-metragem de Gomes, lançado no Festival de Cannes em 2005, sinaliza a maturidade cinematográfica de uma geração, que pôs os pés na estrada justamente com curtas como O Crime da Imagem, realizado em 1992. Nele trabalharam nomes como os atuais diretores João Falcão e Paulo Caldas, o roteirista e diretor Hilton Lacerda, a diretora de fotografia Kátia Coelho e o ator Aramis Trindade, além do próprio Lírio Ferreira.

Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de estrada, que aposta no humor singelo, sustentado por uma espécie de “causo” típico do interior. Apresenta uma impressionante fotografia de tons alaranjados, que traduzem o calor do sol escaldante e os cenários amplos do sertão. Prima por diálogos bem concebidos e pela atuação impecável da dupla central de atores, Peter Ketnath e João Miguel. Um vigoroso exercício de cinema.

A fotografia, assinada por Mauro Pinheiro, é talvez a maior virtude deste filme, que começa com uma imagem totalmente estourada pelo o excesso de luz, para progressivamente, dar correção e foco, revelando uma paleta de cores com variação entre o dourado e o ocre. Dos tons amarelados aos esbranquiçados, muito contraste para evocar a luminosidade do semi-árido.

A trama confronta dois personagens bem distintos, dois mundos que se encontram no Brasil do início dos anos 1940. Um deles é um alemão fugido da guerra (Ketnath), que, a bordo de um caminhão, se embrenha pelos bretões do semi-árido pernambucano para vender analgésicos, usando como chamariz para o seu comércio um equipamento de projeção.

Durante as andanças do alemão, surge um matuto (João Miguel), que se torna ajudante, alimentando o sonho pessoal de um dia viajar com o novo patrão rumo à cidade grande, quem sabe, o Rio de Janeiro. Esse par improvável vai resultar numa forte amizade, capaz de superar todas as diferenças, numa aventura que prima pelo olhar humanista.

O Crime da Imagem, por sua vez, sintetiza em treze minutos a essência da peça teatral O Crime do Conselheiro e as Lágrimas do Leão de Natuba, de Rubem Rocha Filho. Fala de Antonio Conselheiro (o ator Tuca Andrada) antes do seu chamamento à missão de profeta messiânico, exibindo um homem dividido entre a devoção à esposa e o medo de ser traído por este amor.

Ferreira cria uma narrativa que se assemelha a uma alucinação, com forte influência impressionista. Um drama psicológico de poucos personagens e duas ambientações, o claustrofóbico lar de Antonio e as cercanias externas, que aparecem na penumbra de uma noite de desatino e na claridade empoeirada do dia em que se vê uma procissão serpenteando pela paisagem seca do sertão e o próprio Conselheiro em busca de seu caminho.

*Jornalista e crítico de cinema. Escreve para veículos impressos e atua também como comentarista em programas de rádio e TV.

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