Incluído nos créditos de Corisco e Dadá, o material de arquivo sobre as ações de Lampião e de seus comandados constitui uma introdução oportuna ao longa metragem, com destaque para a qualidade da trilha musical. O mascate Benjamin Abraão, autor das filmagens reais, aparece em momentos da ficção, a epopéia de Corisco e Dadá, contada por Regina Dourado a pescadores cearenses. A narrativa é construída por sucessão de episódios da vida dos protagonistas, com mitos infiltrados nos fatos históricos. Há citações esparsas ao Corisco de Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do sol. O curta de José Humberto é complemento perfeito ao filme de ficção. Em cenas documentais, entremeadas também com materiais de arquivo, Dadá já bem idosa relata os fatos da sua vida nos acampamentos de Lampião, do medo à pacificação, das alegrias às tensões da guerra desigual que, depois de 20 anos, dizimaria a revolta camponesa dos cangaceiros.
Filmes do Programa 66
Tempo total aproximado do programa: 111 minutos.
Crítica
Título: Dois olhares sobre um amor sertanejo
João Carlos Sampaio*
Uma história de amor e tragédia contada duas vezes. Corisco & Dadá, longa-metragem de ficção do cearense Rosemberg Cariry, sublinha a voz do cangaceiro, cheia de questões sobre a vida e a morte no sertão. Enquanto que o curta documental A Musa do Cangaço, do sergipano José Umberto Dias, se faz feminino na voz da própria Dadá que exibe a mansidão das respostas cristalizadas pelos anos.
A primeira imagem do filme de Cariry é o mar, a quase antítese caudalosa da secura sertaneja. Na voz da contadora de histórias encarnada pela atriz Regina Dourado o engano se desfaz. Em tempo presente, ela prepara o espectador para a abundância de leituras da narrativa e avisa: “o sertão é mar”.
Corisco & Dadá se ocupa, em parte, do relato de uma história conhecida. A menina-mulher arrancada do lar pelo cangaceiro vai ter a repulsa ao seu algoz metamorfoseada em paixão. Um amor que resiste à mortandade e ao ocaso do cangaço.
Sem se deter à mera reconstituição histórica, o diretor vai atrás dos significados dessa união homem-mulher, da razão de ser do banditismo, da vida esturricada pelo sol e pelo abandono. Evoca o simbólico país de São Saruê, referência do cordel e depois do cinema (clássico documentário do paraibano Vladimir Carvalho), que é o equivalente à bíblica Terra Prometida.
Corisco está à frente no título e na condução da história contada por Cariry. É ele que olhando o vazio avermelhado da caatinga vai ousar supor como seria a aliança do cangaço com a Coluna Prestes. Revolucionário, diz que o sertão precisa desaparecer e ser reinventado. A frase se ouve logo após a melodia da alegórica canção separatista "Nordeste Independente", de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova.
Tal qual Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Corisco & Dadá também se debruça sobre o cristianismo messiânico. O batismo às margens do rio Jordão é revisto no cenário sertanejo. Só que na testa do bebê do casal escorre sangue e não água. “Deus alumia minha pontaria”, diz Corisco (Chico Diaz). Ao que retruca Dadá (Dira Paes): “mas é o diabo que faz o fogo ser cuspido da boca do seu fuzil”.
Um bode, animal da região capaz de resistir à seca, é destrinchado num dos primeiros momentos do filme. Seus olhos são arrancados. Como as mãos lavadas de pilatos, o sertão não tem mãos (nem olhos) que dele se ocupem, é dor que não se vê.
Assim a figura serena da ex-cangaceira Dadá, uma mulher sexagenária no curta-metragem de José Umberto, é mais do que uma resposta mansa e feminina. É acalanto para toda a perda. O cangaço é, na lembrança dela, um tempo de fraternidade e alegria. A arma de fogo é comparada a um brinquedo, assim como é dito que a essência de Corisco é brandura e cavalheirismo.
Aquela avó e mãe que circula nas ruas de Salvador e manipula habilmente sua máquina de costura parece estar em paz. Ela conseguiu enterrar a cabeça cortada e insepulta do seu amor. Não por acaso, a imagem que encerra estes dois filmes.
*Jornalista e crítico de cinema. Escreve para veículos impressos e atua também como comentarista em programas de rádio e TV.