Os olhos são a janela da alma: este o mote do documentário de João Jardim e Walter Carvalho sobre a maneira como cegos e deficientes de visão “vêem” o mundo. O filme estrutura-se através de depoimentos, colhidos mundo afora, de personalidades como o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo Eugen Bavcar, a atriz Marieta Severo e um vereador cego. A certa altura, José Saramago afirma que somos cegos de tudo o que faz de nós um ser agressivo, egoísta e violento, num mundo de desigualdades e sofrimentos. Perfeito complemento é o curta-metragem sobre a vida do Cego Oliveira, tocador de rabeca no sertão do Ceará, dono de uma visão muito particular do mundo. Fascinante a proposta autoral de Lucila Meirelles em recorte experimental, sustentado por fotos fixas, paisagens fora de foco, cadernos de cordel, artesanato popular, tudo isso composto em sinfonia audiovisual, ao som da rabeca e da voz do Cego cearense.
Filmes do Programa 68
Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.
Crítica
A visão da cegueira
Lúcio Flávio*
A cegueira é um mal que paira sobre a humanidade desde tempos remotos. Obscureceu os caminhos de mestres da literatura como Homero e Jorge Luis Borges, iluminou a falta de visão existencialista do escritor português José Saramago, que metaforizou o assunto em obra impressionante. O abstrato tema ganhou tratamento inquietante com o documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Realizado em 2001, o trabalho aponta várias direções para a temática a partir de depoimentos de pessoas – famosas ou não – míopes ou totalmente cegas. Traça paralelos edificantes, correlacionando o assunto com ciências como a medicina a filosofia, passando pela biologia, música, literatura, estabelecendo sutil e inteligente flerte metalingüístico com o cinema. É de uma sofisticação gritante, mas de uma simplicidade perturbadora também. A conclusão não poderia ser mais surpreendente: a cegueira não é apenas o que não vemos, mas aquilo que vemos também.
Escorado na frase de Leonardo Da Vinci, que dizia ser "o olho é a janela da alma, o espelho do mundo", o filme conduz o espectador por caminho de luz entre as trevas da deficiência, tanto física – daquilo que não se pode ver, quanto existencial, daquilo que não se pode sentir por meio do sentido visão. Chama atenção pela profundidade e, às vezes, poesia com que explora o assunto.
Autor do celebrado Ensaio sobre a cegueira, José Saramago chama atenção para cegueira causada pelo excesso das imagens, implicativo, segundo ele, numa visão pessimista, para o vazio da alma humana.
Um detalhe que salta aos olhos em Janela da alma é o processo narrativo, enquadrado dentro de linha sensorial. Acompanhando os discursos dos 19 entrevistados, Jardim e Carvalho brincam com imagens que jogam com os olhos do espectador, subvertendo a percepção visual de quem está do outro lado do vídeo. Assim, sublinha depoimentos com formas desfocadas, pontilhadas, "arranhadas", lugares ermos, com a intensidade das luzes de uma grande metrópole.
Mas são nos sutis exercícios de metaligüagens, surgidos quase que naturalmente, que Janela da alma se mostra mais encantador. Com visões debilitadas – cada um com média de 8 graus em cada óculos –, João Jardim e Walter Carvalho foram buscar no colega de ofício Wim Wenders, solidárias explicações sobre a "cegueira cinematográfica". O discurso do cineasta alemão, míope desde a infância, dialoga com as observações do escritor José Saramago. "Ter tudo em excesso significa que nada temos. A atual superabundância de imagens significa, basicamente, que somos incapazes de prestar atenção. Que somos incapazes de nos emocionarmos com as imagens", conclui o diretor.
Com narrativa caótica, desconexa, o curta-metragem Cego Oliveira no sertão do seu olhar, de Lucila Meirelles, surge quase como que uma espécie de referencial semiótico para Janela da alma. Produção de 1998, traça de forma metafórica a cegueira a partir dos relatos de um velho músico nordestino. "Mamãe dizia que quando nasci já foi sem vista", avisa o personagem, que parece ter saído da literatura de cordel.
Adotando, quase que o tempo todo recursos visuais alternativos, o filme desconstrói a imagem ao sabor das histórias de Cego Oliveira, um exímio músico popular. São imagens embaçadas, desfocadas, ora granuladas, fora de quadro que colocam o espectador a par de realidade vivenciada pelo personagem como o sertão, a rabeca, vultos de Luiz Gonzaga e de Pe. Cícero.
Adornados por camada sensorial, premissas sensitivas, os dois projetos, mais do que tratados sociais sobre o assunto, surgem como elemento simbólico não apenas àqueles que não enxergam, mas daqueles que enxergam também. Prova que a visão às vezes pode não ser enxergada, ou mal-aproveitada, assim como a total falta dela, iluminada.
*Crítico de cinema do Correio Braziliense.