Este programa recupera imagens e histórias do cearense Padre Cícero Romão Baptista (Crato, 1844-1934). O curta-metragem Padre Cícero, de Geraldo Sarno, alinhava material visual recolhido de outro curta (Padre Cícero - O patriarca de Juazeiro, de 1955, uma "compilação cine-documental de Alexandre Wulfes"), além de cenas de meados dos anos 1920. Essas preciosas imagens também estão no longa-metragem Milagre em Juazeiro, de Wolney Oliveira, que num misto de documentário e ficção, reconstitui a história que deu origem ao mito do Padre Cícero: entre 1889 e o ano seguinte um curioso fenômeno vai acontecer sucessivas vezes envolvendo a beata Maria de Araújo (1863-1914). Esta costureira, humilde, negra e analfabeta, descartada da história oficial, transformava a hóstia em sangue toda vez que a recebia das mãos de Padre Cícero.
Filmes do Programa 70
Tempo total aproximado do programa: 93 minutos.
Crítica
Padre Cícero em julgamento
Carlos Alberto Mattos*
Além da própria figura do Padre Cícero Romão Batista, existem dois elementos em comum no longa e no curta-metragem que compõem este programa. Primeiro, as cenas documentais filmadas pelo pioneiro do cinema cearense Adhemar Albuquerque em meados da década de 1920, durante os festejos com que o “Padim Ciço” inaugurou a sua própria estátua. Recuperadas em 1955 num filme de Alexandre Wulfes, elas ganharam então uma narração pomposa, celebratória e – como vemos no curta de Geraldo Sarno – anticomunista!
O Padre Cícero de Sarno aproveita essa deixa para denunciar a devoção como fator de alienação e imobilismo político. O curta é de 1970, época em que o cinema engajado apontava a religião como ópio do povo. Já em 1999, quando Wolney Oliveira realizou o longa Milagre em Juazeiro, a curiosidade antropológica prevalecia sobre o posicionamento político – e o mesmo material de Albuquerque/Wulfes é alvo de outro tipo de interesse. Importa mais como ilustração do que como crítica. A apropriação de imagens antigas varia, portanto, de acordo com os momentos e as intenções. Da mesma forma, varia a imagem que se produz do Padre Cícero.
O outro aspecto comum entre os dois filmes é que Padre Cícero está em julgamento. Na porção encenada de Milagre em Juazeiro, acompanhamos o processo que os prelados movem contra Cícero e sua devota, a beata Maria Araújo, em cuja boca as hóstias supostamente transformavam-se em sangue. Enquanto isso, na parte documental do filme, o tema é debatido por padres, estudiosos e remanescentes do tempo do Padim. À parte algumas cenas de exposição dos romeiros e penitentes, o que vemos é o desenrolar de uma espécie de tribunal em que atores, pesquisadores e populares “julgam” o padre e a beata.
No curta, o diretor encarrega-se de dar ele próprio a sentença. Uma velha beata de fala obsessiva e quase incompreensível só pode ser vista como a imagem condensada do irracionalismo e das ilusões que bloqueariam o progresso político. No longa, o cineasta aparentemente exime-se de julgamentos diretos, deixando que o debate se instale no raciocínio do espectador. No entanto, conforme evolui o roteiro, percebemos que o padre e a beata gradualmente saem do foco da discussão e o objeto do julgamento passa a ser a Igreja oficial. Os juízes passam a ser os julgados. Desenha-se, então, uma Igreja inquisitorial, que parece voltar as costas para a fé popular e agir estritamente segundo seus próprios cânones. Sutilmente e sem proselitismo, Wolney Oliveira dá mais crédito às manifestações do povo do que ao “racionalismo” eclesiástico.
Enfim, de Albuquerque a Wulfes, a Sarno e a Oliveira, cada época produz a sua imagem do Padre Cícero. Milagre em Juazeiro tem a ousadia de trazer José Dumont no papel do “santo do sertão”. O ator, naturalmente exuberante, faz um exercício de contenção que parece contagiar toda a proposta do filme: diante de um fenômeno carismático e emocional, assumir uma postura de equilíbrio e pesquisa.
*Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre os cineastas Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky, Maurice Capovilla e Vladimir Carvalho.