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Uma questão de Terra e A pedra da riqueza

Programa 72
Documentaristas por vocação, Vladimir Carvalho e Manfredo Caldas irmanam-se neste olhar crítico sobre a espoliação do povo, no sertão paraibano. A Pedra da Riqueza descreve o trabalho braçal nos garimpos de xelita, para denunciar o contraste entre as formas rudimentares de exploração das jazidas e o produto resultante, o tungstênio. Uma questão de terra aborda a ocupação de terras improdutivas por fazendeiros latifundiários, destinando-as à criação de gado, em detrimento dos tradicionais moradores na região. O longa reúne depoimentos sobre ameaças de morte sofridas por trabalhadores rurais, com destaque para a memória do assassinato de Margarida, líder sindical. Denuncia ainda o recuo do texto aprovado pela Assembléia Constituinte de 1988 em relação à legislação vigente na época. Os dois filmes trazem luzes sobre explorações e conflitos rurais até hoje não superados.

Filmes do Programa 72


Tempo total aproximado do programa: 96 minutos.

Crítica


O povo fala

Carlos Alberto Mattos*

Quando a televisão se acostumou a usar o som direto e mandar seus repórteres para a rua, ali pelos anos 1970, o telejornalismo de terno e gravata ganhou um termo curioso: “povo fala”. Era uma espécie de pausa na voz do narrador e na retórica das imagens ilustrativas para se ouvir a “voz do povo”: declarações rápidas tomadas em lugares públicos para confirmar e legitimar a notícia.

Uma Questão de Terra é uma espécie de reportagem de onde se tiraram o terno e a gravata, ficando somente o “povo fala”. As vozes dos trabalhadores rurais de diversas localidades da Paraíba, ouvidas por Manfredo Caldas e sua equipe entre 1986 e 1988, não estão ali para comprovar nada. Elas são a própria matéria do filme.

Par a par com o tema – a luta pela terra, a violência do latifúndio, a resistência dos agricultores nas ocupações, a postergação sem fim da reforma agrária –, salta aos olhos e aos ouvidos a maneira como as pessoas falam. Seja em manifestações, seja em acampamentos ou num terreiro qualquer, o falante está sempre cercado de gente que enche o campo visual. Alguns “sopram” coisas no ouvido de quem fala, outros pedem a palavra ou falam simultaneamente nos cantos do quadro. Há um desejo enorme de falar, pois a voz é o instrumento de luta mais à mão.

Quem fala está no centro da cena, mas não necessariamente no centro da imagem. Ora a câmera de Walter Carvalho se afasta do falante para captar as expressões e posturas de quem está ao redor; ora a montagem “cobre” as falas com outros rostos que parecem, mais que ouvir, se solidarizar com aquele que fala. Com esse procedimento, o filme se torna coral.

Para relatar o assassinato da líder camponesa Margarida Maria Alves, seus familiares não poupam palavras, detalhes e indignação. São dois longos planos assediados pelo desejo de denunciar, lutar com as armas do verbo contra as armas de fogo. E depois que o Congresso Constituinte de 1988 vota contra a reforma agrária, o filme se permite um proselitismo coerente: monta uma cadeia de olhares silenciosos e ressentidos de trabalhadores, que fixam a câmera como num alerta à sociedade. O MST não tardaria a recrudescer suas ações.

A Paraíba de Uma Questão de Terra é a mesma das Ligas Camponesas dos anos 1960, que geraram Cabra Marcado para Morrer e parte da inspiração de Vladimir Carvalho, o diretor do curta A Pedra da Riqueza. Vladimir e Manfredo são parceiros em muitos filmes, e é claro o parentesco entre suas obras. Mas quando filmou a antiga mina de xelita, em 1970, Vladimir não contava com equipamento de som direto. As imagens mudas só seriam sonorizadas anos depois, quando o diretor encontrou casualmente na UnB um funcionário que havia trabalhado na mesma mina e comentou as imagens diante da moviola.

A Pedra da Riqueza, com sua eloqüente metáfora sobre a alienação do trabalhador sertanejo em relação ao produto de seu trabalho, tornou-se um clássico do curta-metragem brasileiro. A fala do homem do povo, distanciada no tempo e no espaço, transformou-se em dado de memória.

* Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre os cineastas Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky, Maurice Capovilla e Vladimir Carvalho.

           
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