João Cabral de Melo Neto afirma em Recife/Sevilha que gostaria de ter sido cineasta, porque ambos (cinema e poesia) trabalham com imagens. No entanto poucos são os filmes que conseguem combinar bem estas duas artes, como fazem os dois que compõem este programa "Cinema e Poesia". O filme de Bebeto Abrantes traça um perfil do poeta pernambucano a partir de seus escritos e de algumas entrevistas (inclusive uma com o próprio), mas o faz sempre preocupado com a ressonância audiovisual das palavras da poesia de João Cabral. Já Inventário da Rapina, de Aloysio Raulino envereda pelo caminho do cinema poético puro, que usa das duas linguagens para construir menos um discurso e muito mais um determinado efeito estético.
Filmes do Programa 75
Tempo total aproximado do programa: 79 minutos.
Crítica
Estética da desorganização
Cléber Eduardo*
Se existe um elo entre Recife e Sevilha (2003), de Bebeto Abrantes, e Inventário da Rapina (1985), de Aloysio Raulino, ele está na organização desorganizadora. Não se busca em nenhum dos médias-metragens uma soma de imagens e palavras cujo objetivo seja ensinar ao espectador uma visão do diretor sobre as situações mostradas. Não se persegue sentidos. Trabalha-se na provocação, mais sensorial em um, mais enigmática em outro. Cada um deles desorganiza o conjunto das imagens a seu modo. Cada um deles tem universos sem nenhuma conexão a princípio.
Recife Sevilha estrutura-se como duas memórias: a de João Cabral de Melo Neto sobre suas experiências, em suas últimas entrevistas, em 1999, e a de outros sobre o poeta. A memória produzida pela narrativa fica nesse “entre” seu protagonista e as vozes/visões motivadas por ele e sua obra. Um “entre” comum a João Cabral, entre Recife e Sevilha, ou acumulando as duas cidades: uma soma.
Entre tantas coisas das quais se fala, o poeta e seus comentadores, duas parecem sublinhadas: o contato com o flamenco em Sevilha na construção rítmica de sua poesia e a memória de uma vida voltada para a arquitetura e reflexão literária. Mais que a experiência, mais que ver paisagens (conhecer lugares ou pessoas), importa a arte (a forma, o estilo), segundo as palavras do próprio João Cabral.
O rigor e a precisão do poeta entram em tensão com a aparência de acúmulo aleatório de Recife Sevilha, mas, se a forma está acima da experiência, o fluxo fragmentado, composto de cacos visuais e sonoros freqüentemente, pode até limitar os registros dos encontros entre equipe e entrevistados, porém com coerência. Há reprodução de uma fragmentação aleatória da própria memória, mais empenhada em criar um fluxo sensorial de sons, palavras e imagens do que em ouvir algo de sábio do poeta ou sobre o poeta. Como na poesia de João Cabral, o ritmo é uma busca, em torno do qual os elementos se dispõem.
Inventário de Rapina desorganiza de outra forma, no limite entre a aleatoriedade na soma dos planos e um pensamento de montagem com terceiras intenções. Não há um universo delineado. Os segmentos autônomos vão se colando um aos outros, sempre com alguma dissonância entre som e imagem, às vezes com imagens de experiências não conotadas, eventualmente com o Brasil se tornando uma questão aludida.
Um narrador descreve cenas de violência de um filme americano enquanto vemos imagens de rostos pintados. Plano de cabeça para baixo. Um negro canta fora de sincronia. Um outro faz seu protesto, também fora de sincronia. Uma mulher passa batom. Um homem toca a Marselhesa na rua. A câmera não sabe de antemão o que filmar dos acontecimentos, muda a referência do enquadramento, parece perdida como a estrutura narrativa, recusa um enquadramento apenas. Quer olhar. Sem corte. Uma câmera em busca de mobilidade. Um filme em busca de seu curto circuito.
* Editor da revista eletrônica Cinética, colaborador do Correio Braziliense, curador dos festivais de Ouro Preto e Tiradentes, e diretor com Ilana Feldman do curta Almas Passantes.