A animação brasileira fala hoje de igual para igual com os principais centros produtores do mundo. Tanto é assim que vários animadores brasileiros trabalham atualmente em Hollywood e longas e curtas nacionais têm constante presença em festivais internacionais. Esta coletânea de curtas realizados na década de 1980 ajuda a traçar um desenho histórico do começo efetivo deste processo. Realizados a partir de um acordo entre a extinta Embrafilme e o National Film Board do Canadá - acordo que levou à criação do Centro Técnico Audiovisual (CTAv) -, são trabalhos de uma série de realizadores que se tornariam capitais no desenvolvimento posterior da animação no Brasil. São desenhos de técnica simples, mas de grande potencial poético e lúdico.
Filmes do Programa 76
Tempo total aproximado do programa: 56 minutos.
Crítica
GERAÇÃO ANIMADA
Marão*
Na década de 1980 o Centro Técnico Audiovisual (CTAv) concentrava o maior volume de produções de animação autoral do Brasil. Em 1986 Marcos Magalhães coordenou, em parceria com profissionais canadenses do NFB National Film Board, um curso que se tornou referência na história da animação brasileira. Os participantes desta experiência produziram os filmes desta coletânea, inspirados e ecléticos trabalhos de animadores neófitos que viriam a se tornar em pouco tempo nomes de destaque da animação nacional, atuando em TV, cinema, publicidade, curtas e séries, e agindo em distintas direções: trabalhando há anos para diversos estúdios de longas-metragens no exterior, produzindo regularmente no NFB, promovendo oficinas por todo o país, além de três desses profissionais unirem-se com Marcos para criar o importante festival Anima Mundi.
As técnicas, estilos gráficos e propostas narrativas destes curtas antecipam a trajetória dos integrantes deste grupo. Trata-se de um conjunto de animações fundamental para se conhecer a história do audiovisual brasileiro.
E mais cativante ainda é atentar para as inusitadas soluções técnicas antes da era digital: Informística é animado com recortes (recortes de fato – os personagens são braços e pernas de papel recortados e animados), Viagem de Ônibus com fotos xerocadas e pintadas à mão, Noturno é pintado com crayons e lápis de cor, Presepe com aquarela – cada frame destes filmes têm centenas (ou milhares!) de artes originais desenhadas e pintadas individualmente (cada frame de filme corresponde a um original com textura, gramatura, cheiro de papel e tinta!). Já Quando os Morcegos se Calam se tornou um clássico pela inspirada solução para animar mais de cinco minutos sozinho em poucos meses: alternando movimentos primorosos em full animation realista com cenas inteiras onde a tela está completamente preta, sustentada apenas pelo áudio, Fábio Lignini constrói um denso clima de suspense ininterrupto e gradual, fazendo o espectador acompanhar a história entre feixes de lanterna e relâmpagos esporádicos. E é essa inventividade e capacidade de transformar as limitações em trunfos a maior qualidade e característica deste grupo de desbravadores das possibilidades do gênero.
O programa ainda apresenta como bônus o curta Tem Boi no Trilho, dirigido por Marcos Magalhães e tendo por colaboradores Aida Queiroz e Cesar Coelho.
Para avançarmos ao futuro é necessário saber de onde viemos. E este programa é uma grande forma de iniciarmos a jornada.
* Marão. Animador, roteirista e diretor de animação. Formado pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Dirigiu sete curtas e animou mais de cem comerciais e institucionais. Presidente-fundador da ABCA (Associação Brasileira de Cinema de Animação) e professor no curso de pós-graduação em animação da PUC-Rio.