Uma característica que tem marcado a produção mais recente de curtas brasileiros é a sua capacidade de dar conta das expressões locais de quase todo o país, possibilitando assim que o espectador brasileiro (re)conheça as paisagens de uma série de diferentes Brasis nas telas. Esta coletânea de curtas permite que passeemos do sertão paraibano ( Passadouro) aos grandes centros urbanos de Rio (Geraldo Voador) e São Paulo (Wholes), indo até a Porto Alegre de Trampolim. No meio do caminho, passamos ainda pelo interior de Minas Gerais ( O Maior Espetáculo da Terra), Brasília (A Lente e a Janela) e pelos rios de Recife (Recife de Dentro para Fora). Para além das peculiaridades deste trajeto geográfico e de paisagens, vemos obras de realizadores extremamente pessoais que, indo do documentário ao ensaio poético quase experimental, passando pela ficção, encontram nos espaços ao seu entorno verdadeiras musas inspiradoras.
Filmes do Programa 77
Tempo total aproximado do programa: 80 minutos.
Crítica
REVELANDO OS BRASIS
Marcus Mello*
Os sete títulos reunidos neste DVD ilustram a diversidade do curta-metragem brasileiro, formando um conjunto que traduz a amplitude de uma cinematografia identificada por marcas regionais profundas, aqui representadas pelos estados de Minas Gerais, Distrito Federal, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
O Maior Espetáculo da Terra documenta as andanças de um circo mambembe pelo interior mineiro. O diretor Marcos Pimentel, com o precioso auxílio do fotógrafo Paulo Castiglioni, dialoga com o clássico Bye Bye, Brasil, de Cacá Diegues, retratando o cotidiano de um humilde grupo de artistas através de imagens de forte significado e enorme beleza plástica. O palhaço de olhar cansado, a bailarina dançando ao som de Madonna ou a desbotada bandeira do Brasil tremulando no alto da lona cheia de remendos do circo são emblemas do estado de penúria vivido pela cultura popular brasileira.
A Lente e a Janela está ambientado em Brasília e acompanha uma menina de classe média alta que, ao ganhar uma câmera de vídeo como presente de Natal, passa a observar uma família de moradores de rua instalada numa praça em frente à sua casa. A câmera subjetiva coloca o espectador no lugar da protagonista, que começa a aprender sobre as misérias do mundo ao produzir imagens, atestando a crença do diretor Marcius Barbieri no poder transformador do cinema.
Em Passadouro, o diretor Torquato Joel apresenta duas situações paralelas para revelar a coexistência de um sertão arcaico e outro moderno no interior da Paraíba, unificados, no entanto, por uma condição comum de pobreza e isolamento. O principal trunfo do filme é a fotografia de Walter Carvalho, já exercitando seu habitual virtuosismo, mais tarde potencializado em longas como Madame Satã e Lavoura Arcaica.
Recife de Dentro pra Fora assume o desafio de traduzir em imagens o poema Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto, sobre o rio Capibaribe. Os versos da obra-prima de João Cabral são cantados por Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Zé Ramalho, enquanto a diretora Kátia Mesel percorre os diferentes cenários cortados pelo rio, dos suntuosos prédios históricos do centro do Recife aos casebres miseráveis construídos em suas margens.
Em Geraldo Voador, Bruno Vianna adapta uma história de Will Eisner para o universo das favelas cariocas. Filmado em preto e branco, o filme presta tributo ao cinema de Rogério Sganzerla, inclusive escalando as duas atrizes-fetiche do diretor de O Bandido da Luz Vermelha, Helena Ignez e Maria Gladys.
Trampolim descreve o fascínio de uma adolescente praticante de saltos ornamentais pelas histórias de suicidas que se jogam de um viaduto no centro de Porto Alegre. Diretor de arte respeitado, Fiapo Barth estréia na direção de curtas com um filme de visual elaborado, explorando com habilidade o cenário urbano porto-alegrense. Trampolim também marca a estréia no cinema de Alice Braga, a atriz de Cidade Baixa e A Via Láctea, como uma das amigas da protagonista.
Melhor curta-metragem no Festival de Gramado em 1991, Wholes é um provocativo filme-ensaio sobre o caos urbano de São Paulo, podendo ser visto ainda como uma irônica metáfora do buraco em que o cinema brasileiro mergulhou durante o governo Collor, com sua política de desmantelamento da cultura nacional. Financiado pelo Channel Four, da Inglaterra, o curta de Cecílio Neto conta com divertidas participações de ícones da cena cultural paulistana, entre eles o cineasta Carlos Reichenbach e o ator Adriano Stuart.
*Marcus Mello: Crítico de cinema, é editor
da revista Teorema (RS) e colaborador
das revistas Aplauso (RS) e Cinética
(RJ). Programador da Sala P. F.
Gastal, cinema mantido pela Secretaria
Municipal da Cultura de Porto Alegre.