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Videoartistas

Programa 79
Este programa faz um recorrido de 20 anos da produção videográfica brasileira, reunindo seis trabalhos dos inúmeros que foram realizados no período (1978-1997). São vídeos poéticos como Lua oriental, com a lua vista da janela de um quarto de hotel em Tóquio. Ou Ali é um lugar que não conheço, impressões do "saber amargo que se tira de uma viagem", do fascínio pelo "lugar que ainda não se conhece". Poético e lírico é também Com o oceano inteiro para nadar sobre o artista plástico Leonilson (1957-1993), um dos mais expressivos nomes surgidos na chamada "geração 80". Videocabines são caixas pretas traz depoimentos de anônimos numa espécie de confessionário a partir de questões como: O que você tem a dizer para um desconhecido? Para o povo brasileiro? O quê? Pra quê? Heróis da decadênsia (sic) revela-se atual e ainda chocante e perturbador em diversas seqüências que exploram as contradições do Brasil. O Beijoqueiro – Retrato de um serial kisser é uma obra riquíssima em imagens de arquivo de uma personagem extremamente curiosa: José Moura. Ele quer apenas beijar...

Filmes do Programa 79


Tempo total aproximado do programa: 106 minutos.

Crítica


SOB O SIGNO DA EXPERIMENTAÇÃO

Marcus Mello*


Embora recente (teria seu início em 1973), a trajetória do vídeo no Brasil já reúne um acervo bastante expressivo, com contribuições inovadoras assinadas por artistas empenhados em explorar as especificidades do formato. O presente programa apresenta alguns trabalhos que marcaram época e garantiram à videoarte brasileira prestígio internacional.
Captado em Betamax, Lua Oriental (1978) mostra a lua vista através de uma janela de hotel em Tóquio. A partir de pequenos movimentos de câmera, José Roberto Aguilar aproxima-se da pintura abstrata ao explorar o contraste entre a luz da lua e a escuridão da noite, nesta que é uma das experiências pioneiras na utilização do formato no Brasil.
Realizado em 1987, Heróis da Decadênsia (sic) mistura jornalismo, documentário e ficção para retratar o Brasil do final dos anos 1980. Duas décadas antes do repórter Borat criado por Sacha Baron Cohen, o diretor Tadeu Jungle aborda transeuntes no centro de São Paulo, colocando-os em situações inusitadas ao lado de um improvável elenco de “atores” (o roqueiro Supla, o poeta Roberto Piva, o cardeal arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns). Visivelmente influenciado pela verborragia e pelos excessos do cinema de Glauber Rocha, Jungle assina um vídeo irônico e rico em significados, embalado pela música de bandas de sucesso na época, como Ultraje a Rigor, Luni e Os Mulheres Negras.
O Beijoqueiro, Retrato de um Serial Kisser (1992), de Carlos Nader, traça o perfil do imigrante português José Alves de Moura, que ganhou notoriedade ao correr o país beijando celebridades. A relação que Nader estabelece com seu objeto, transformando-o em personagem de si mesmo, subverte as convenções do documentário tradicional, além de proporcionar uma interessante reflexão sobre a construção de fenômenos midiáticos.
Em Videocabines São Caixas Pretas (1990), Sandra Kogut coleciona imagens e depoimentos de anônimos que aceitaram a proposta de atuar diante da câmera durante 30 segundos, em cabines pretas espalhadas pela artista na cidade do Rio de Janeiro. Com este trabalho, Kogut não apenas antecipa o fenômeno dos reality shows, como também revela o quanto o formato teria a oferecer se não se deixasse nortear pela vulgaridade e pela banalização.
Ali é um Lugar que Não Conheço, de Lucas Bambozzi, é um ensaio poético construído em torno do tema da viagem. Imagens granuladas, textos de autores como Charles Baudelaire, Frank Kafka, Roland Barthes e Paul Bowles e uma edição frenética são alguns dos recursos acionados pelo autor, um dos expoentes da chamada geração mineira de vídeo, surgida no final dos anos 1980. Neste trabalho realizado em 1996, Bambozzi faz uma espécie de road-movie hiper concentrado e acelerado, arrastando o olhar do espectador por diferentes estradas e cidades de um país estrangeiro a princípio não identificado, mas que algumas pistas (placas de sinalização, detalhes da arquitetura) denunciam ser o Marrocos.
Bem antes de ser reconhecida por sua atuação como montadora (Janela da Alma, Cinema, Aspirinas e Urubus), a pernambucana Karen Harley dirigiu Com o Oceano Inteiro para Nadar (1997), vídeo sobre o artista José Leonilson, que morreu de AIDS em 1993, aos 36 anos de idade. As sutilezas do trabalho de Leonilson são captadas com extrema precisão pela câmera de Jacques Cheuiche, enquanto trechos dos diários gravados pelo próprio artista entre 1990 e 1993 surgem em “off”, revelando algumas de suas reflexões mais íntimas. Harley investe nas possibilidades expressivas da montagem e o resultado é um comovente retrato de um artista quando jovem, cujo desaparecimento prematuro não o impediu de produzir uma obra grandiosa.

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