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O Canto do Mar

Programa 8
O Canto do MarAmpliar Foto do Programa 8
Classificação
10 anos
Séries
· Brasil diverso


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O Canto do Mar apresenta a história de retirantes da seca que foram para o litoral, primeira etapa da migração em direção ao sul, encontrando uma sina de loucura, miséria, traições e desesperança da qual o menino-protagonista deseja escapar. O filme adapta para o litoral brasileiro a história de En rade, produção francesa dirigida pelo próprio Cavalcanti em 1927. O Canto do Mar foi muito criticado na época por mostrar para o exterior a miséria do nosso povo. O filme representa uma guinada na temática nordestina no cinema brasileiro da época. Enquanto O Cangaceiro procura aclimatar as convenções do gênero épico e o lirismo musical do cinema mexicano à produção industrial paulista, Cavalcanti prefere explorar os caminhos inéditos no Brasil de um realismo humanista. Embora o filme esteja atrelado à linguagem dos estúdios, nos aspectos mais convencionais como uma certa rigidez na mise-en-scène e a impostação dos atores, a escolha por filmar em locação traz o encanto e as surpresas da cor local. A seu modo, O Canto do Mar procura se aproximar do neo-realismo. As fisionomias que vão surgindo na tela, pouco ou nada costumavam freqüentar o cinema de ficção brasileiro. O hibridismo entre a antiga vanguarda e a crescente sensibilidade social mostram que tanto o filme quanto o cineasta são figuras da transição entre o velho e o novo. O próprio tom desesperado, afastado dos padrões então vigentes no "realismo socialista" parece sintonizado com o sentimento moderno perceptível nos filmes do Cinema Novo menos impregnados de messianismo militante.

Filme do Programa 8


Tempo total aproximado do programa: 124 minutos.

Crítica


Cavalcanti: entre a poesia e a política
Marcos Pierry

Quando rodou O Canto do Mar, em 1953, Alberto Cavalcanti tinha três décadas de carreira. Tempo suficiente para o brasileiro já haver acumulado uma experiência que se consolidara em momentos fundamentais da cinematografia européia ? das vanguardas francesas ao documentário social britânico, sem esquecer sua contribuição, nada desprezível, para importantes estúdios nos dois países. O Cavalcanti que volta ao Brasil no final dos anos 40 é, portanto, um cineasta maduro, em quem a burguesia paulista deposita seus anseios de estabelecer no país uma cultura cinematográfica numerosa em títulos e, em termos de qualidade, capaz de dialogar com a filmografia dos centros mais importantes. Surge, assim, a Vera Cruz (com estúdios em São Bernardo do Campo/SP), projeto ambicioso que naufraga com a mesma voracidade de seus empreendedores.

Ao armar base de produção em Pernambuco, para a realização de O Canto do Mar, Alberto Cavalacanti é uma grife pra lá de questionável, que entraria em franco desgaste nos dez anos seguintes, não só pela cristalização do simbólico fiasco da Vera Cruz, mas sobretudo pelo poder de combate dos chamados independentes, precursores do cinema novo (à frente, Roberto Santos e Nelson Pereira dos Santos), e principalmente dos próprios cinemanovistas, que vieram em seguida, liderados por Glauber Rocha. Lembre-se ainda que Cavalcanti mostrou-se reacionário ao se aproximar do governo Vargas.

Com um intervalo de cinqüenta anos, o longa-metragem pode ser visto sem a pesada tutela política da ocasião. Conta a história de um rapaz, Raimundo, e de sua desagregada família, que vivem à beira-mar em meio às dificuldades impostas pelo alcoolismo do pai. Zé Luís é um homem atormentado, artesão de barcos que se atirou à cachaça após um acidente em alto mar, quando ele teria machucado a cabeça. Maria, a matriarca, lavadeira, é quem dá tino aos filhos. Além de Raimundo, que ajuda nas despesas trabalhando em um armazém, há Nina e o pequeno Silvino.

Imagens e um off dão conta da penúria existente no sertão esturricado e funcionam como uma espécie de prólogo da narrativa, regida em linhas gerais por expedientes da linguagem clássica. Os retirantes se encaminham ao litoral para, de lá, seguirem ao sul do Brasil em embarcações. Raimundo quer tomar o mesmo destino. Apaixonado por Aurora, planeja uma fuga a dois, que vê frustrada em vários sentidos. Ele ainda enfrentará a profunda amargura da mãe e o fim trágico do pai, sem nada poder fazer, embora muito tenha tentado. Neste determinismo, e nas várias tomadas externas, que conferem uma autêntica cor local ao filme, O Canto do Mar esboça uma forte influência neo-realista. E consolida seu inegável valor.

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  1. Marcos Paulo Blasques Bueno
    Acredito que a citação realizada sobre a utilização da locação por Cavalcanti em O Canto do Mar é muito relevante sobre aspectos do realismo humanista, o uso citado demonstra algo de seu métier artístico como diretor e figura inovadora do gênero documentário. Além de Cavalcanti trazer um ´toque documentar´ também em suas obras de ficção, vale lembrar que em seus trabalhos há exploração de aspectos poéticos e narrativos através de articulações entre imagem, som e música, tal como ocorre, por exemplo, em ´Rien que les Heures´ de 1926 e em ´Coal Face´ de 1935. Vale a pena analisar e reler essas construções. Grande cineabraço musicanimado a todos, Marcos Blasques Compositor, Maestro, Cineasta
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