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33 e Clarita

Programa 80
A presença/ausência da figura materna está no coração desses dois filmes. No longa-metragem 33, Kiko Goifman cria um dispositivo estimulante: ao completar 33 anos, ele se propõe investigar a identidade de sua mãe biológica durante 33 dias, registrados em filme e monitorados pela internet. No curta Clarita, Thereza Jessouroun contempla sua mãe acometida por Alzheimer e se faz perguntas sobre a família, o amor e a razão de viver. Em comum, ainda, a experiência muito contemporânea do documentário em primeira pessoa e o uso de recursos da ficção. Enquanto 33 mobiliza o aparato do filme policial, Clarita engaja o talento da atriz Laura Cardoso para complementar seu comovente relato.

Filmes do Programa 80


Tempo total aproximado do programa: 89 minutos.

Crítica


EM BUSCA DE SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

Paulo Henrique Silva*


O título do documentário 33, primeiro longa-metragem do diretor mineiro Kiko Goifman, lançado em 2003, é justificado pela idade do realizador na época da produção, além de representar o número de dias que ele empregou para uma busca detetivesca em torno de sua mãe biológica.
Podemos extrapolar essa brincadeira com o número e medir, a exemplo do médico que coloca o estetoscópio nas costas do paciente e pede para ele dizer “33”, a saúde de uma geração de cineastas de Minas Gerais que começou na videoarte, nos anos 1980. Como bem lembra um dos personagens do filme, 33 era também a idade de Jesus Cristo quando crucificado. Podemos dizer que esse mesmo grupo, que passou a se lançar com mais afinco no cinema a partir do novo milênio, “salvou” a produção do estado, enchendo-a de oxigênio a ponto de abrir caminhos para uma nova estética documental.
As mudanças que transformaram o gênero, calcadas na poesia e facilitadas pela tecnologia digital, têm nas Alterosas uma importante contribuição. Não só com Kiko Goifman, mas também com Cao Guimarães (Andarilho), Patrícia Moran (A Pleno Pulmões) e Lucas Bambozzi (Do Outro Lado do Rio). Além de outros que, mesmo não fazendo parte da mesma geração, estão dando um toque bem mineiro ao documentário, como Marília Rocha (Aboio, vencedor do Festival É Tudo Verdade de 2005).
Um elemento comum atravessa essa produção: a questão do tempo, que tem em 33 um ingrediente-chave para a sua análise. Mais importante até que a sua conclusão, voltada para a descoberta da mãe biológica de Goifman, é a duração do trabalho. Independentemente do resultado que tivesse em mãos, o documentário terminaria ao final de 33 dias. O conceito subverte, em parte, a necessidade de uma resposta pronta para o espectador sobre o tema tratado. O caminho é o da desmitificação do próprio gênero.
Dos dois detetives que abrem o trabalho “investigativo” do filme – e que carregam um quê de patético – aos próprios familiares, sobre quais o realizador põe dúvidas por conta da proximidade, 33 percorre uma trilha inversa, desconstruindo códigos e brincando com o mistério ao estabelecer referências com a literatura policial e o policial noir. O que vemos é uma provocação, com o diretor usando a sua própria história, provando que, por mais pessoal e verdadeira que seja, o resultado nunca abrirá mão da ficção. E é essa ficção que interessa a Goifman, especialmente na maneira como os entrevistados reelaboram e enriquecem os fatos sobre o seu nascimento.
Clarita, curta que acompanha 33 neste programa, não possui origens mineiras ou mesmo faz parte de um novo segmento do documentário. A sua relação com o longa-metragem é de outra ordem, ao destacar a filiação materna. A diretora Thereza Jessouroun também está falando de sua mãe, mas num sentido contrário. Se Goifman refaz uma situação difícil (a separação do filho após o parto) que se normaliza com o tempo, Thereza tenta entender como uma vida feliz e ativa pode dar um giro de 180 graus, devido ao Mal de Alzheimer, desestruturando toda a família. A encenação desta história tem uma interpretação primorosa de Laura Cardoso.

*Crítico de cinema e repórter
especializado na área de cinema do
jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte.
Formado em jornalismo na
Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Belo Horizonte, é pósgraduado
em Gestão Estratégica da
Comunicação, pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais.
Atualmente assina a coluna Moviola
do site Cinema em Cena.

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