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Bahia de todos os santos e Um dia na rampa

Programa 81
Da herança de imagens do cinema brasileiro vem essas duas jóias que abrem uma janela para o passado filmado de Salvador (BA), e também do Brasil. No curta-metragem Um Dia Na Rampa (1957), de Luiz Paulino dos Santos, uma série de instantâneos do porto de serviços de Salvador, nos anos 1950, nos mostram a rampa do Mercado Modelo, entrada e saída dos trabalhadores do mar. No longa-metragem Bahia de Todos os Santos (1960), o diretor Trigueirinho Neto apresenta um painel político e social do país na era Vargas. Aclamado pela crítica e estrelado por Geraldo Del Rey, o filme é marcado por fotografia expressiva de Guglielmo Lombardi.

Filmes do Programa 81


Tempo total aproximado do programa: 107 minutos.

Crítica


Retratos da diversidade

Lúcio Flávio*


Realizado em meados dos anos 1950 - mas só lançado em 1961 -, Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, foi, pode-se dizer, um dos precursores do Cinema Novo, emergindo como uma semente da corrente que sacudiu a cena cinematográfica na década de 1960.

Aparentemente a trama é de uma simplicidade gritante. Gira em torno de um grupo de amigos inconformados com o marasmo e a vida monótona da capital baiana - que é passada a limpo, logo na abertura, num belíssimo plano-sequência que capta alguns signos da região, como o dia-a-dia dos pescadores e seus barcos à vela navegando sob um céu carregado, o mar aberto com suas ondas hipnotizantes, ou pelo sincretismo religioso que banha essa "Bahia de todos os santos".

Conflitos sociais estes desafogados pelas pessoas simples do local em casas noturnas, norteadas, claro, pelos prazeres da vida como a bebida, a música do momento e o sexo. "Todo mundo quer sair daqui! Vou me embora para São Paulo", revolta-se, em dado momento da história, o personagem de Antônio Pitanga, irreconhecível em suas feições joviais. "Para mudar de cidade precisa de protetor, um pistoleiro", retruca um outro.
Mas é justamente diante deste clima de inércia que se encontra os personagens malditos de Bahia de Todos os Santos, mergulhado, nas entrelinhas, dentro de um turbilhão semiótico construído pelo roteiro de Trigueirinho. Entre eles o permanente conflito entre religião e política, autoritarismo e submissão social, burguesia e miséria. E não apenas isso: estão presentes temas bastante espinhentos para época - como comunismo, greve, sindicalismo, adultério e racismo. Tudo abordado de forma direta e incisiva. De um pragmatismo que assusta. "Não é preciso saber ler para cumprir o decreto do presidente", diz um dos milicos à uma mãe-de-santo, em represália ao candomblé e suas manifestações exaltadoras. A passagem, aliás, denuncia objetivamente a precária condição da educação no Brasil daqueles longínquos anos 1950. Um problema que, como constatamos, diante da atual realidade, atávico.

Pensado como um projeto dividido em cinco episódios - com um deles dirigido pelo então jovem Glauber Rocha -, Bahia de Todos os Santos (mas tarde apropriado pelo paulista Trigueirinho), é um retrato pungente de uma região marcada por suas contradições culturais e religiosas, por sua diversidade social.

Não é de se estranhar que o filme, pertencente ao fenômeno baiano que assaltou os cinco primeiros anos da década de 1960 do cinema brasileiro, tenha influenciado projetos futuros com sua apurada estética antropológica. Talvez a referência mais imediata, mais próxima, esteja no seminal Barravento, primeiro longa-metragem dirigido por Glauber Rocha, em 1962. Embora mais focado na questão do misticismo e suas contradições, a obra glauberiana mantém o discurso socialista que permeia Bahia de Todos os Santos, que viria a ser o único trabalho dirigido por Trigueirinho. Pouco depois de realizar o filme o roteirista, diretor e produtor paulista abandonaria a sétima arte para torna-se líder espiritual com mais de 70 livros publicados.

E das sobras de um outro projeto, o malogrado documentário Bahia, Tradição e Festa, realizaria o curta-metragem Um Dia na Rampa, filme que surge de introdução para o longa Bahia de Todos os Santos. Com pouco menos de 10 minutos, o trabalho, sonorizado por Glauber Rocha, é um registro realista de um dia de trabalho na Rampa, tradicional ponto de comércio da capital baiana. Com seu olhar minucioso de fotógrafo, Luiz Paulino dos Santos flagrar momentos preciosos do cotidiano daquele nicho permeado por pescadores, capoeiristas, barcos à vela, vendedores, turistas, homens comuns deleitando-se com o gosto da cachaça num do vários botequins do cais. Trata-se de verdadeira poesia visual que adornaria com propriedade as melodias arrastadas de Dorival Caymmi ou a literatura prolífera de Jorge Amado.

* Lúcio Flávio Crítico de cinema do jornal Correio
Braziliense.

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