Um edifício em Copacabana, 25 moradores, gente aparentemente muito comum. Mas a câmera de Eduardo Coutinho vai encontrar ali toda a matéria de que se fazem os melodramas: solidão, fantasias, vaidade, dramas familiares. Em mais essa obra-prima de um mestre do documentário testemunhamos a precisão na escolha dos personagens e o rigor na opção pela palavra. Ouvindo as entrevistas conduzidas por Coutinho fazemos nosso “cinema mental”. Ao mesmo tempo, os entrevistados se mostram de uma maneira mais complexa e reveladora do que se não estivessem diante de uma câmera. É cinema-verdade da melhor estirpe, repleto de humanidade.
Filme do Programa 82
Tempo total aproximado do programa: 110 minutos.
Crítica
A vida como teatro
Carlos Alberto Mattos
Dramas familiares, solidão, pequenas fantasias compensatórias, vaidades mínimas e convivência precária – eis a (i)matéria de Edifício Master, um concentrado de substância humana raramente visto no cinema brasileiro. Entre os moradores “visitados” pela equipe de Eduardo Coutinho estão verdadeiros protagonistas de uma dramaturgia da vida real: um casal de meia-idade que se conheceu através dos classificados de um jornal, uma garota de programa que sustenta a filha e a irmã, um ator aposentado, um ex-jogador de futebol e um porteiro desconfiado de que o pai adotivo, com quem sonha toda noite, é seu pai verdadeiro.
Todos foram apresentados, no material de divulgação oficial do filme, como “personagens por ordem de entrada em cena”. A expressão não é gratuita. O documentarista sabe que está lidando com personagens que se auto-constroem diante da câmera, numa “atuação” em que verdade e mentira se mesclam indissociavelmente. A vida frente à câmera tem muito de teatro, como iria demonstrar posteriormente o também genial Jogo de Cena. Alessandra, a garota de programa, chega a confessar que havia mentido na pesquisa, mas afirma que agora, no filme de fato, seria verdadeira. “Para a gente mentir, tem que acreditar”, diz. Já a moradora Maria do Céu recorda-se de como eram divertidos os tempos em que o prédio era menos familiar, para logo em seguida admitir, quase compungida, que “agora melhorou”.
Enquanto uns se desnudam, emocionados, outros se preocupam em impressionar bem a suposta audiência. O que o filme mostra, afinal, são formas distintas de tratar a oportunidade de encarar uma câmera. As comoventes ou engraçadas patologias que se descortinam diante de nós evidenciam não apenas a riqueza humana daquelas pessoas, mas também a capacidade do documentário de, por meio da mentira, retratar um tipo mais complexo de realidade.
Este é o primeiro documentário de Coutinho centrado na classe média, contingente que tem recebido pouca atenção dos documentaristas brasileiros. Mas não existe a intenção de fazer um retrato de classe. Assim como Copacabana surge apenas nas linhas e entrelinhas de alguns relatos, os moradores do Master não aparecem como representantes de um grupo social, mas como individualidades irredutíveis, cada uma expressando apenas a si mesma. O assunto do filme é a vida privada na grande cidade, o apartamento como último refúgio de indivíduos submetidos ao exercício estressante de olhar e ser olhado.
Convencido de que o dia-a-dia puro e simples não interessa cinematograficamente, Coutinho vai em busca dos momentos especiais deflagrados pela presença da câmera. Mais uma vez, a performance artística é o veículo que faz as pessoas descolarem do plano do cotidiano para atingirem uma espécie de eu oculto, uma autoprojeção no mundo da fantasia. O pessoal do Master canta, declama, exibe suas pinturas. Assim sendo, que ninguém espere meros flagrantes da vida nos minúsculos apartamentos de Copacabana, mas confissões comovidas, declarações vaidosas, almas que se ocultam ou se revelam aos poucos, ao ritmo das conversas com o realizador.
Para muitos, Edifício Master foi a culminância da terceira fase da carreira de Eduardo Coutinho, seu melhor filme desde o clássico Cabra Marcado para Morrer. É onde sua recusa da embalagem “artística”, ao mesmo tempo que se radicaliza mais que nunca, também atinge o resultado mais expressivo. Na extrema pureza documental desse filme, testemunhamos a ética se consubstanciar numa estética.