Em "Madame Satã", o cineasta Karim Aïnouz equilibra crueza e plenitude de estilo visual com uma visão "neo-macunaímesca" no retrato de um personagem real. João Francisco dos Santos (Lázaro Ramos), artista transformista e criminoso conhecido como Madame Satã, foi uma figura singular da marginália carioca nos anos 1930. "Eu sou filho de Iansã e Ogum e de Josephine Baker eu sou devoto", diz este freqüentador da boemia da Lapa entre golpes e mortes. O temperamento explosivo de Madame Satã constrói pela destruição uma vida emblemática, em atos movidos sem mesura por instinto e paixão. A câmera de Aïnouz age como um personagem dos ambientes nos fazendo participar intimamente da vida do protagonista, não apenas retratando à distância, mas se integrando à sua própria vida.
Filme do Programa 85
Tempo total aproximado do programa: 105 minutos.
Crítica
Entre a sordidez e a eternidade
Sérgio Alpendre
Um filme sobre Madame Satã, mesmo que acompanhe apenas o período anterior à criação desse personagem, não tem como evitar um tema sempre perigoso, pois une homossexualismo e travestismo. Karim Aïnouz assume o risco em seu longa-metragem de estréia e adota o tratamento mais físico possível, com a fotografia de Walter Carvalho sufocando os atores em camadas espessas de texturas desfocadas. O fora de foco é a opção estética para traduzir o imprevisível que se apresenta a todo momento para o protagonista, dono de um destino que talvez seja pesado demais para ele carregar sozinho.
Lázaro Ramos foi o ator escolhido para encarnar o personagem, que foi inspirado no filme Madam Satan, de Cecil B. De Mille. Ramos brilha num papel difícil, que exige uma entrega incondicional. Mas, na verdade, veremos pouco do personagem, e muito de quem o inventou, o jovem João Francisco dos Santos. Ficamos conhecendo seus ideais libertários, seu desejo de fazer sucesso no mundo do espetáculo, sua vida em um casebre pobre na Lapa, junto de Laurita (Marcélia Cartaxo), com quem teve um filho, e de um travesti chamado Tabu (Flávio Bauraqui), a quem protege e maltrata, não necessariamente nessa ordem.
A primeira imagem do filme, antes dos créditos iniciais, mostra o rosto machucado de João, que posa contrariado para uma foto policial enquanto uma voz o acusa, fora de quadro, de ser desordeiro, pederasta, de raspar as sobrancelhas, de não ter religião, de afinar a voz, fumar, jogar, beber... Essa imagem retorna no final, quando então ficamos sabendo o porquê de sua prisão e quanto tempo ele permaneceu encarcerado. O que vemos durante todo o filme é sua juventude no início dos anos 1930, seu caminho tortuoso para o sucesso nos carnavais do Rio de Janeiro e sua dificuldade de aceitar a hipocrisia e o preconceito de qualquer espécie.
Depois dos créditos iniciais, vemos João por trás de uma cortina olhando o show de uma cantora interpretada por Renata Sorrah, e percebemos que a ribalta o atrai. Seu maior sonho é estar ali, como aquela diva aos seus olhos, ocupar o mesmo espaço pelo qual ela se move elegantemente. A elegância de uma mulher no palco é o que João irá perseguir para si, tomar como modelo, sem abrir mão de uma certa virilidade que seu corpo masculino lhe dá. Essa procura não se dará sem uma boa dose de sofrimento e enfrentamento dos preconceitos da sociedade na época.
Entre pequenos golpes, intolerâncias e uma longa passagem pela prisão, João vai construindo seu caminho em direção a um estrelato no carnaval carioca. Estrelato que nos é mostrado apenas no final, com uma breve narração do próprio personagem, e com efeitos visuais que emulam algo distante e etéreo, que parece acontecer numa outra dimensão. Madame Satã estava pronto para existir e brilhar. Com o cinema aprendeu a se fantasiar. Para o cinema fez render esta bela homenagem. Pelo cinema mais uma vez pode ser eterno.