Aspectos da história, cultura e sociedade do sul do país são objeto dos filmes deste programa. O curta-metragem Mazel Tov traz duas histórias de colonizadores rurais judeus em uma visão graciosa e poética narrada por um olhar romântico e nostálgico. Destaque para o músico Hique Gomes, que compõe a trilha sonora e ainda tem uma divertida participação tocando violino em uma cena de festa. Já o longa-metragem Netto Perde Sua Alma constrói uma emocionalmente intensa alegoria imagética de um general atuante na Guerra de Farrapos e Guerra do Paraguai. O filme traz na premiada interpretação de Werner Schunemann, mais do que um retrato histórico, uma representação da complexidade do amadurecimento político e cultural do país a partir de um panorama gaúcho.
Filmes do Programa 86
Tempo total aproximado do programa: 116 minutos.
Crítica
A força da História
Sérgio Alpendre *
Netto Perde Sua Alma se inicia com dois curtos letreiros: um sobre a Guerra dos Farrapos, revolta republicana que, por ser abolicionista, contou com a ajuda de escravos; outro sobre a Guerra do Paraguai, extremamente violenta, que abalou a consciência de muitos militares. Em seguida, vemos o hospital onde se encontra o general Antônio de Souza Netto (Werner Schünemann), gravemente ferido em batalha. Aos poucos, e respeitando o fluxo de emoções do protagonista, vemos momentos importantes de sua vida, desde as primeiras campanhas na luta pela república e pela abolição na Guerra dos Farrapos, passando por momentos difíceis nos momentos subseqüentes à derrota pelos monarquistas, até o início de um relacionamento amoroso pouco antes da Guerra do Paraguai.
A História tem um peso forte para nosso herói, pois sua vida foi completamente subordinada ao curso dela. Trata-se principalmente da História do Rio Grande do Sul, quando se desejava acima de tudo formar a república, mesmo que para isso fosse necessária a independência da então chamada província riograndense.
A habilidade com que os diretores, Tabajara Ruas e Beto Souza, tratam essa trama - propensa à grandiosidade de produção e cheia de armadilhas em sua confecção - se explica em parte porque o filme é baseado no livro escrito pelo primeiro, e a adaptação levou em conta a força visual que o cinema poderia imprimir ao relato. Dessa forma, são constantes no filme os belos planos valorizando a natureza e a pequenez do homem e de suas intrigas. Com isso, o risco de literatura em excesso foi habilmente evitado.
Mas Netto Perde Sua Alma não parece desejar a simples filiação ao filme histórico. Sua verve onírica é forte, e comanda as opções estéticas, principalmente a partir da segunda metade do filme. Conforme Netto delira febril na cama do hospital, começam as confusões entre o que é real, o que é sonho ou delírio, e o que é lembrança. Fantasmas aparecem, e o curso de sua história vai mudar para sempre.
Sem ser exageradamente didático, nem cair no vazio da fantasia fácil, Netto Perde Sua Alma consegue um belo feito: fazer com que procuremos saber mais sobre a Guerra dos Farrapos e a situação do Império poucos anos após a Declaração de Independência. De quebra, permite alguns bons momentos de puro cinema.
O curta-metragem que complementa o programa também conta parte da História do Rio Grande do Sul, mas a época é outra, e o tom é muito mais leve. Já com o regime republicano, no início do século 20, Mazel Tov narra duas histórias de comunidades judaicas da região: os Phillipson e os Quatro Irmãos. Dirigido com bom humor e ritmo agradável por Jaime Lerner e Flávia Seligman, o filme é um bom convite à diversão. Graças a algumas similaridades de proposta, um filme acaba sendo o complemento espiritual do outro.
* Sérgio Alpendre Formado em Comunicação Social, é
crítico de cinema desde 2000, quando
se tornou redator da revista eletrônica
Contracampo. Criador e editor da Revista
Paisà, publicação impressa especializada
em cinema, desde novembro de
2005. Ministra aulas e palestras livres
sobre cinema. Já teve textos publicados
na revista Bravoem abril e maio de 2006.