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Quem é de fato o poeta? De maneiras bem diferentes, esses dois filmes tentam responder a uma pergunta que o cinema freqüentemente se coloca, desde Jean Cocteau. Em O Poeta de Sete Faces, feito para comemorar o centenário de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Thiago lança mão de linguagens bastante diversas – que incluem o documentário, a ficção e o recital – para retratar um Drummond multifacetado. Já no curta Satori Uso, Rodrigo Grota inventa um poeta, um cineasta e um filme-dentro-do-filme para revelar fragmentos da vida de um homem que escrevia para desaparecer. Cada qual à sua maneira, um e outro respondem ao desafio de fazer a poesia chegar à tela cinematográfica.
Filmes do Programa 89
Crítica
As muitas faces de Drummond
Paulo Henrique Silva
Características marcantes da poesia de Carlos Drummond de Andrade, como simplicidade, humor, estranheza e familiaridade, também estão presentes no documentário Poeta de Sete Faces, dirigido pelo cineasta mineiro Paulo Thiago e lançado nos cinemas em 2002, ano do centenário desse que é um dos maiores nomes da nossa literatura. Ao mesmo tempo em que mantém um caráter didático do início ao fim, passeando, de forma cronológica, pela história e obra do poeta itabirano, o filme insere elementos que arejam a narrativa e dialogam com o estilo de Drummond.
Ao optar pelo docudrama, dramatizando várias passagens da trajetória do escritor, Paulo Thiago reserva para Drummond o papel de “gauche”, caminhando entre seus personagens e interlocutores com o olhar perplexo que pautou a sua poesia. O ator Carlos Gregório estampa o Drummond de “Poema de Sete Faces”, texto de abertura do livro “Aquela Poesia”, publicado em 1930, estabelecendo assim a conexão com o título do documentário e o propósito múltiplo do projeto de um cineasta que tem dedicado parte de sua filmografia à valorização da literatura brasileira.
As muitas faces do poeta são incorporadas na narrativa, em dramatizações e apresentações musicais inspiradas em versos de Drummond, e depoimentos de estudiosos e companheiros de escrita, como Ferreira Gullar, Adélia Prado e Affonso Romano de Sant’Anna, que dissecam, basicamente, as três grandes fases do autor – a primeira delas, que vai de 1902 a 1934, do nascimento à formação anedótica e modernista em Belo Horizonte; a segunda, já no Rio de Janeiro, contempla o lado político e de crítica social; e a última, entre as décadas de 1950 e 1980, de cunho mais filosófico.
As dramatizações são simples e curtas, muitas delas carregadas com a ironia típica de Drummond, como em “Quadrilha” e “Boitempo”. Os musicais abarcam estilos diversos, do pop de Samuel Rosa (vocalista do Skank) à música lírica de Maria Lúcia Godoy, passando pelo Coral Calíope, que interpreta “E Agora, José?”. Estas intervenções dentro do documentário tradicional (jornalístico) conferem uma certa estranheza, resultando numa atmosfera lúdica e envolvente que, em nenhum momento, entra em choque com a narração informativa de Júlia Lemmertz, ilustrada por raras imagens de arquivo.
Já o curta-metragem Satori Uso (2007) é um falso documentário, sobre personagens que nunca existiram. Em tempos que a realidade mais ordinária ganha amplo espaço na mídia, o filme do diretor Rodrigo Grota segue caminho inverso, buscando uma grandeza e uma singularidade que só existem na ficção. Através de um poeta japonês pouco conhecido e de um cineasta norte-americano underground, o curta se apropria com muita sensibilidade do contexto dos movimentos culturais de uma época (anos 1950 e 1960, principalmente), adotando estilo semelhante, como fotografia em preto-e-branco e narrativa contemplativa, que é o que há de mais documental em Satori Uso, apontando para uma manifestação de arte que não existe mais.