Uma "viagem pelos confins do tempo presente", prenuncia o cartão do prólogo, em Terceiro Milênio. A câmera solta do diretor Jorge Bodanzky invade a casa e depois rios, encontros de madeireiros, quartéis de polícia e embarcações como quem visita a casa de um parente próximo que habita num lugar distante. "Assim são as coisas na Amazônia", avisa o pitoresco e eloqüente senador Evandro Carreira no seu papel de guia deste documentário que retrata dualidades diversas: o país e a fronteira, o índio e o branco, a política e a realidade. Já no curta-metragem, Amazonas, Amazonas, do cineasta Glauber Rocha, temos uma leitura poética da história de um terreno desejado e batalhado onde sangue, madeira, borracha e dinheiro se misturam em uma memória visual de viajante que se complementa ao filme de Jorge Bodanzky.
Embora feitos há décadas, estes filmes retratam a mesma realidade atual de uma terra própria e ao mesmo tempo estrangeira.
Filmes do Programa 91
Tempo total aproximado do programa: 105 minutos.
Crítica
No coração das trevas
Lúcio Flávio *
Mais conhecido pelo emblemático road movie Iracema - Uma Transa Amazônica, de 1975 (co-dirigido com Orlando Senna), Jorge Bodanzky adquiriu respeito no cinema brasileiro por sua postura independente diante do mercado cinematográfico. Sua trajetória começou a ser pavimentada após uma temporada na Alemanha onde - por ser filho de austríacos -, conseguiu uma bolsa para estudar fotografia na Universidade de Ulm. De volta ao Brasil, no final dos anos 1960, participou como fotógrafo em diversos trabalhos até começar a produzir e realizar seus primeiros projetos.
Foi mais ou menos neste período que, convidado pela revista Realidade a fotografar a região amazônica, adentrou no coração das trevas de um mundo até então pouco conhecido dos brasileiros. A partir daí, conduzido por olhar crítico, registrou as mazelas e conflitos sociais do local em projetos originais como o já citado Iracema - Uma Transa Amazônica e Terceiro Milênio, destaque deste programa.
Finalizado em 1981, o documentário registra a viagem do senador amazonense Evandro Carreira por seu estado em agosto de 1980. O périplo, que percorre suas bases eleitorais e traz o político como um cicerone ufanista e profundamente apaixonado por suas raízes, revela ao espectador problemas que, quase 30 anos depois, ainda continuam pertinentes na região. Problemas de caráter político-sociais e humanistas como os entraves territoriais entre o Brasil e seus vizinhos (Peru e Colômbia), os conflitos entre madereiros locais e as grandes empresas de fora, a deficiência da educação para os mais carentes, as irregularidades e abuso de poder da Fundação Nacional do Índio - FUNAI e, sobretudo, o descaso dos órgãos competentes com relação a condição do índio, os verdadeiros donos desse oceano verde. "A FUNAI hoje é um instrumento de poder para explorar o índio que se encontra abandonado e explorado", denuncia o político.
Destituído de qualquer método revolucionário narrativo no gênero, a câmera crua mas totalmente objetiva de Bodanzky, no melhor estilo cinema verdade, desenha ao sabor da retórica rebuscada e contagiante de Carreira os conflitos sociais deste gigante verde. Nenhum questionamento, opinião ou intervenções são manifestados pelo diretor, mas as muitas imagens de impactos que surgem dizem por si próprias, deixando ao espectador tirar suas próprias conclusões. Um claro exemplo desse método narrativo transparente é constatado no instante em que a barca desfila diante de uma fábrica de compensados peruana. "É uma atividade de alta periculosidade, é antiamazônico e antiecológico", indigna-se o senador, que profetiza a importância da floresta amazônica e suas riquezas para as sociedades futuras. "A Amazônia é isso: água, umidade, calor, selva, fotossíntese. O futuro do mundo está na água", vaticina.
Em busca de recursos para a realização de um projeto maior - o marco Terra em Transe, de 1967 - o cineasta baiano Glauber Rocha topa realizar em 1965, a convite do Departamento de Turismo e promoções do estado do Amazonas, o curta-metragem Amazonas, Amazonas. "Cheguei ao Amazonas com uma idéia preconcebida e descobri que não existia a Amazônia lendária e mágica, a Amazônia dos crocodilos, dos tigres, dos índios etc...", comentou o diretor certa vez à revista francesa Positif. Assim, tomado por inconfundível estilo lírico e preocupação nacionalista, Glauber sintetiza e confronta em 15 minutos as belezas e riquezas naturais da região amazônica com a exploração extrativista e a submissão do comércio local ao mercado estrangeiro. "Mas enquanto se pensa no futuro, a realidade do presente nos faz pensar no mais remoto passado", observa o diretor, que mescla imagens da selva verde com seqüências urbanas da selva de pedra.
O contraste entre a exuberância natural com o descaso social nos dois filmes é gritante, revelando, já naqueles longínquos anos, a preocupação com a preservação de um santuário ecológico com enorme potencial econômico.
* Lúcio Flávio Crítico de cinema do Correio Braziliense.