Hip hop paulista é ativismo social. O brega amazonense se mira no espelho da sátira. Um documentário baiano termina em moqueca. As marionetes do Morrinho fazem seu desfile de carnaval. Maria Capacete xinga mas ama seus vizinhos em Santos. E por aí vai esse mapa do Brasil do ponto de vista das comunidades de morro e periferia. Em nove curtas, um mosaico da expressão autônoma de brasileiros livres para representarem a si mesmos. Cada um a sua maneira, mas com espírito eminentemente coletivo, o povo das comunidades está oxigenando o audiovisual brasileiro. Fruto de ações de inclusão social pela cultura e da conquista da auto-expressão, esse cinema anuncia um novo tempo.
Filmes do Programa 97
Tempo total aproximado do programa: 76 minutos.
Crítica
Cada um com seu cinema
Carlos Alberto Mattos*
Uma das maiores novidades do audiovisual brasileiro contemporâneo é o movimento de cinema e vídeo das comunidades de favelas e periferias. Como exemplificam os nove curtas enfeixados neste programa, uma série de fatores de natureza tecnológica, econômica e social contribuiu para esse momento de efervescência.
A redução de custos dos equipamentos e a simplificação dos procedimentos técnicos através da edição eletrônica possibilitaram um acesso inédito aos meios de produção audiovisuais. A ênfase na inclusão social através da cultura favoreceu as trocas entre os antigos detentores do “saber” e as camadas a quem só restava consumir ou ficar à margem. Em decorrência de tudo isso, as próprias comunidades assumiram a responsabilidade – e o prazer, é claro – de construir uma linguagem própria para expressar seus dilemas, medos, festas e afetos. Cada um com seu cinema.
É interessante notar como esse movimento trouxe uma desmistificação de vários aspectos do cinema institucionalizado. A autoria se dissolve no coletivo, os gêneros narrativos coexistem, o glamour comercial desaparece das produções. Compreendemos isso muito bem diante dos filminhos de quatro minutos dos Acadêmicos do Morrinho, com seus personagens de peças de lego “dirigidas” manualmente e sua cenografia miniaturizada em tijolos. Se a produção é quase igual a zero, a elaboração cinematográfica é nota dez. A gramática da filmagem, ao mesmo tempo que é precisa e eficiente, faz um comentário levemente satírico dessas mesmas convenções.
Hoje talvez já se possa falar num submovimento chamado “cinema de oficina”, cujos trabalhos evidenciam a multiplicidade de formas de expressão buscadas pelas diferentes comunidades. Das tradicionais Oficinas Kinoforum, por exemplo, temos aqui o hip-hop-filme Defina-se, onde os vocabulários da colagem, do clipe musical e do documentário se entrelaçam no encalço de uma representação original e contemporânea da identidade negra. As mais recentes Oficinas Querô, por sua vez, deram à luz a pequena jóia documental que é Maria Capacete. O retrato de uma peculiar moradora de bairro periférico de Santos (SP), construído em brilhante edição de depoimentos de seus vizinhos, amigos e parentes, é uma lição de como captar um sentimento comunitário através de uma unidade dramática bem delineada.
Nas águas do documentário navega também o singelo Seu Aloísio e o Mar, instantâneo de um velho pescador de Amaralina, litoral de Salvador. Temperado por Caymmi e por vinhetas de animação, o curta termina como tinha de ser: numa moqueca partilhada por personagem e equipe.
Outros gêneros visitados são o videoclipe, o thriller de morro e a aventura infantil. No impagável Geyzislaine, Meu Amor, uma sátira ao romantismo brega amazonense, percebe-se a inovação do videoclipe-com-citação: a canção-tema é interrompida por um trecho de Fernando Mendes para retornar mais adiante.
Do Rio de Janeiro vêm duas incursões ao coração da favela. Mulher de Amigo, da Boca de Filme de Cidade de Deus, tem câmera esperta, telas partidas e levada funkeira para dizer do machismo violento que ainda impera por aí. Papo de consciência, mas com muita ação. Picolé, Pintinho e Pipa, como sugere o nome, é lance de criança, mas com técnica de adulto. A agilidade da realização, mais a atuação espontânea dos meninos que tentam agarrar uma oportunidade, sabendo que na vida “nada é de graça”, fazem o encanto desse curta do Nós do Morro.
*Carlos Alberto Mattos Crítico e pesquisador de cinema,
autor de livros sobre Walter Lima Jr.,
Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge
Bodanzky e Maurice Capovilla. Crítico
de O Globo, do site criticos.com.br e
autor do DocBlog / Globo Online.