Filmes baseados em livros são muito comuns desde o início da História do Cinema. Mas filmes que tomam o objeto livro como elemento dramático ou foco de interesse documental não são tão freqüentes assim. Nos seis curtas aqui reunidos os personagens desenvolvem algum tipo de relação especial com os livros ou com o seu coletivo, a biblioteca. Os gêneros são os mais variados, da comédia terrorífica à aventura romântica, do documentário humanista à fantasia lírica. No centro de tudo, a paixão pela literatura e pelos ambientes a ela relacionados. De alguma maneira, esses filmes se referem também à paixão pelo cinema e pela mágica ponte que se estende entre as duas formas de expressão.
Filmes do Programa 98
Tempo total aproximado do programa: 80 minutos.
Crítica
24 Páginas por Segundo
José Roberto Rocha*
Dos seis curtas-metragens que compõem o programa “Curta cada página”, é em “O Homem-livro” (de Anna Azevedo), documentário que abre o programa, que os livros ocupam a posição de maior relevância. O filme centra-se em um único personagem, um pedreiro sem educação formal que se apaixonou pela leitura e fez de sua casa uma biblioteca comunitária onde estão estocados mais de 42 mil títulos. É neste espaço limitado por inúmeras pilhas de livros que o personagem e a câmera se instalam quase que integralmente, escancarando a intimidade entre Evando e o local, uma relação que beira a paternidade e, em conseqüência, um sentimento de posse bastante particular. Os recorrentes sons das obras do novo prédio onde será instalado o acervo, desta forma, parecem assombrar tanto o pedreiro quanto o próprio filme, que se esforça em registrar com generosidade os últimos instantes daquele ambiente insólito.
O programa segue com quatro ficções. A primeira delas é “Clandestina Felicidade” (de Beto Normal e Marcelo Gomes), livre adaptação de “Felicidade Clandestina”, conto autobiográfico de Clarice Lispector que aborda seu cotidiano quando criança em Recife. O filme apóia a maior parte de seu charme nostálgico em dois pontos essenciais: a singela - porém eficiente - reconstituição histórica da cidade durante o início do século 20 (muito auxiliada pela utilização do preto e branco) e a atuação extremamente espirituosa de Luisa Phebo no papel da escritora quando criança.
“Dedicatórias” (de Eduardo Vaisman) narra a história de uma jovem viúva que coleciona dedicatórias de amor escritas por estranhos em livros usados. O curta possui como principal qualidade um elenco bem acima da média, encabeçado por Zezé Polessa no papel da protagonista. Ao redor dela gravitam, encantados, não só os personagens masculinos como a própria câmera do diretor e, no final das contas, é esta admiração incondicional que parte do cinema – ou da arte em geral – a única que lhe interessa. O filme é, ele próprio, uma dedicatória oferecida a atriz.
Já “A Vingança da Bibliotecária” (de Santiago Dellape) tem os pés fincados no terreno do cinema fantástico. Trata-se de um delírio filmado que tem como palco uma biblioteca povoada de figuras assustadoras. O filme bebe em fontes diversas do gênero, indo desde o barroquismo formal do cinema de horror italiano até a inventividade visual dos filmes de José Mojica Marins. A própria estrutura narrativa de pesadelo interminável – e as liberdades de encenação decorrentes dela - é bastante familiar, sendo aqui permeada por um senso de humor negro que transborda na deliciosa cena final.
O preto e branco em que foi rodado “O Livro” (de Aleques Eiterer) reflete a sobriedade de estilo que marca o filme e seu andamento. Um tom melancólico se estende pela narrativa lenta e esparsa em que um livro passa pelas mãos de personagens em momentos distintos de suas vidas, indo da infância a velhice e retornando ao começo. Há um cuidado na composição de cada plano – em especial as belíssimas imagens finais - e na forma como eles são intercalados que consegue fazer com que esta trama quase irrisória se torne uma tocante reflexão sobre o caráter cíclico e efêmero da vida.
Por fim, fechando o programa está o documentário “O Livro de Walachai” (de Rejane Zilles), que apresenta a história do professor João Benno Wendling e do pequeno povoado da Serra Gaúcha onde habita junto a uma anacrônica comunidade de imigrantes alemães. Busca-se registrar a atmosfera e vivência do local, porém o maior interesse nasce justamente quando o filme se transforma em um elogio irrestrito ao professor e sua tocante paciência ao confeccionar o livro que trata da história de Walachai e dá título ao curta. Celebra-se, assim, o cinema e a literatura como valiosas ferramentas de preservação da memória.
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